Resumos

André Conforte – O diálogo luso-brasileiro da canção como agente da lusofonia bottom-up

A partir do conceito de Lusofonia bottom-up – em oposição à Lusofonia top-down (Maciel, 2010), nosso trabalho pretende demonstrar que, num nível de interação que de certa forma independe das negociações diplomáticas e econômicas exercidas pelos Estados e instituições internacionais do mundo lusófono, diversos agentes culturais, em especial cantores e compositores brasileiros e portugueses, realizam trocas extremamente profícuas no âmbito da canção popular. Essas trocas, no entanto, se realizam por meio de uma uma sutil negociação no plano linguístico-discursivo, num jogo que se equilibra entre a concessão e a preservação das identidades. Com base no conceito de ethos coletivo, buscaremos ainda demonstrar que essas interações cancionais entre brasileiros e portugueses configuram um sofisticado jogo de espelhos, em que a imagem de si e do outro revela concepções mútuas de ordem cultural, linguística, musical e discursiva.


Carlos Henrique Fonseca – As literaturas de Língua Portuguesa e a formação de jovens leitores

Evocando o pensamento de Eduardo Lourenço, na incontornável publicação A nau de Ícaro e Imagem e miragem da lusofonia (2001), “não pode dizer-se de língua alguma que ela é uma invenção do povo que a fala. O contrário seria mais exato. É ela que o inventa. A língua portuguesa é menos a língua que os portugueses falam do que a voz que fala os portugueses” (p. 120, grifo original). Assim, as reflexões de Lourenço conduzem a uma perspectiva que, sem perder de vista as importantes e necessárias heterogeneidades, conduz a um olhar para as manifestações artísticas em Língua Portuguesa como fios entrecruzados de uma memória cultural partilhada, formando uma comunidade frontalmente oposta a qualquer lógica colonialista. Tendo isso em vista, propõe-se uma reflexão sobre a importância e os desafios de um trabalho comparativo com as literaturas de Língua Portuguesa no contexto da Educação Básica, uma vez que o espaço escolar é de suma importância para a formação de jovens leitores e pode garanti-los o acesso aos textos que compõem essa memória cultural partilhada em Língua Portuguesa..


Carmem Negreiros – Belle Époque Carioca & Lima Barreto: redes, ruas e criação

A partir do conceito de rede, tendo como ponto de intersecção as ruas do Rio de Janeiro, a comunicação mostrará que a produção literária da Belle Époque carioca enfrenta (e explora) a cultura de massas, presente no entretenimento, na disputa de lugares em jornais e revistas, no mercado livreiro, nas produções de espetáculos, nas gravações de discos, na música e dança como mercadoria. Ao mesmo tempo, escritores e escritoras se envolvem numa tarefa de conhecimento do país a partir da cidade. A comunicação apresentará, ainda, o escritor Afonso Henriques de Lima Barreto inserido nesse campo interartístico e intermidiático com base nos cadernos Retalhos. Ao reconfigurar linguagens do teatro de revista, do jornal e do espetáculo urbano, em seus processos de criação literária, redes e ruas se transformam em laboratório estético e ético.


Eliana Alves Cruz – Narrar a memória viva de antepassados

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Germana Sales – Grêmio Literário Português: legado literário e histórico luso-brasileiro, na Amazônia paraense

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Jerónimo Pizarro – Arca e biblioteca: a vida dupla de Fernando Pessoa

Fala-se muito da célebre arca de Fernando Pessoa e menos da sua biblioteca; contudo, ambas coexistiram e constituíam dois lados de um mesmo processo de escrita e leitura. Esta exposição propõe aproximar a “arca” e a estante (os livros lidos, anotados e por vezes vendidos ou dispersos), mostrando como a sua interseção permite conhecer melhor tanto o trabalho de criação como as redes de leitura de Pessoa. Com base em estudos sobre bibliotecas de escritores e sobre a formação de arquivos literários, defende-se que tratar a biblioteca e o espólio como campos complementares enriquece a interpretação dos textos pessoanos e abre novas possibilidades metodológicas —da história da leitura à edição crítica e à curadoria— para compreender a circulação de ideias e o lugar de Pessoa na cultura impressa do seu tempo. A valorização simultânea da arca e da biblioteca não é apenas um gesto erudito, mas também uma política de salvaguarda do património intelectual que permite ler, com mais rigor e sensibilidade, a “vida dupla” do autor entre os mundos da escrita e da leitura.


Jorge Vicente Valentim – Personagens brasileiras na novíssima ficção portuguesa: reflexões em torno de alguns exemplos

O exercício dialógico de transposição de personagens brasileiras na ficção portuguesa não constitui uma novidade ou uma exclusividade de ficção portuguesa do século XX ou da mais recente. Desde o século XIX, com os casos de Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós, a inserção desta categoria de criatura vem sendo uma prática com resultados bem específicos e interessantes. O que se percebe, porém, na novíssima ficção portuguesa é ora uma permanência de alguns estereótipos físicos, ora uma investida em casos referenciais como sinalização de uma esperança. A partir dos pressupostos de Catherine Gallagher (2009), James Woods (2011, 2024) e das considerações de Daniela Marcheschi (2024), Jacinto do Prado Coelho (1965) e Rosemary Granja (2009), teceremos algumas reflexões em torno de alguns textos produzidos neste primeiro quartel do século XXI, dentre eles: Afonso Reis Cabral, Alexandra Lucas Coelho, Álvaro Cúria e Ana Bárbara Pedrosa. 


Lilia Schwarcz – A Real biblioteca e o processo de independência brasileira

A palestra aborda a sina da Real Biblioteca, que foi levada de Portugal ao Brasil a partir de 1808 e acabou virando parte da querela e da disputa econômica no contexto da independência do Brasil. O objetivo é contar a história de uma “outra independência”, protagonizada por livros e a ideia simbólica de uma biblioteca, que guarda “todos” os saberes. O país tornava-se independente, mas pagou uma conta polpuda em 1825 para ter a maior biblioteca da América no início do século XIX.


Madalena Vaz Pinto –  Desordem narrativa na produção romanesca de Maria Velho da Costa ou a ficção como câmara de ecos

No começo do séc. XX instaura-se o que o ensaísta João Barrento define como “uma desordem narrativa” (Barrento 2016, p. 67). Sinalizada pela interrogação “Quem narra no romance?” tal desordem marcou, há cerca de um século, início do séc. XX, portanto, um momento decisivo da modernidade literária, determinante para o futuro desta grande forma da tradição burguesa. Reveladora de um desassossego e desconfiança quanto ao narrador onisciente, tal indagação abre caminho para mudanças fundamentais nessa forma canônica de narrar: a história deixa de ser contada a partir “de fora”, de uma única perspectiva, e a matéria narrativa desenvolve-se de modo autônomo no corpo do texto, chegando ao leitor através de uma série de vozes que ‘dividem’ com o narrador a tarefa de contar a história. Nesta apresentação, trata-se de pensar como, na ficção de Maria Velho da Costa, já definida por alguns críticos como uma “câmara de ecos”, a multiplicidade de vozes que compõem o tecido narrativo sinalizam modos de escuta renovados e o descentramento do sujeito cartesiano ocidental.


Marcello Tomé – Turismo na modernidade carioca

A cidade do Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XXI desponta como um relevante destino turístico sulamericano, sobretudo no segmento de sol e praia, tendo encerrado o ano de 2025 com o melhor desempenho do turismo internacional de sua história, recebendo aproximadamente 2,2 milhões de turistas estrangeiros. No entanto, ao longo do século XIX, registros em livros, jornais e revistas destacam as dificuldades e os riscos que era visitar a cidade do Rio de Janeiro, constantemente apresentada como a pior capital da América do Sul, considerada feia, insalubre e pouco atrativa para viagens pensadas atualmente como turísticas. O que teria acontecido, para que poucos anos depois, ainda nos primeiros anos do século XX, o Rio de Janeiro se destacasse turisticamente e fosse considerada a Cidade Maravilhosa. Para buscar responder tal indagação, utilizaremos material da época, como livros, jornais, revistas, cartões postais e fotos da época, relacionando as transformações urbanas, as melhorias na saúde pública com a ampliação da atratividade turística da urbe carioca.


Paulo Cesar de Oliveira – Experiências nas salas de leitura nas escolas públicas da educação básica (fundamental e médio)

Demonstrar como a frequência dos alunos nas salas de leitura desperta o interesse na prática da leitura, através da interação e os projetos diversos, sugerido por professores e alunos.


Paulo Knauss – A presença da história luso-brasileira na coleção museológica do IHGB

O trabalho pretende caracterizar como a história luso-brasileira é representada na coleção museológica do IHGB para pensar os sentidos da do colecionismo e das práticas de colecionar no Brasil. A análise vai partir da história de propostas e iniciativas de aquisição de objetos para tratar outros existentes na coleção a partir da história de sua procedência. Ao final, pretende-se tratar com destaque o caso da representação do nascimento da princesa d. Maria da Glória, criada pelo pintor Manuel Dias de Oliveira.


Paulo Sales – A paródia e o riso modernistas de Oswald de Andrade em Patrícia Lino

Em nossa comunicação, iremos nos deter em examinar as estratégias discursivas, intertextuais e intermediais presentes na poética da poeta portuguesa contemporânea Patrícia Lino (1990 – ) que, a nosso ver, podem ser lidas por meio de um diálogo com a poesia de Oswald de Andrade. Lino, em sua escrita multimodal e transmedial – ao se valer de elementos interartes, tais como a música, a performance, vídeo, os beats, as tecnologias digitais, etc – vale-se de uma dicção risível e paródica, o que nos faz, como leitores da tradição da poesia brasileira, a associá-la às práticas risíveis, cômicas e intertextuais dos poemas-piada de Oswald, mais especificamente em Poesia Pau Brasil (1924). Ambos, cada um à sua maneira, promovem outras possibilidades de criação poética por meio de práticas de apropriação e de fricção de códigos. Em Lino e em Oswald, destacamos a presença da comicidade como estratégia ridicularizadora de lugares-comuns. No caso específico de Oswald, sua ironia volta-se sobre o passado colonial brasileiro e sobre a própria história do Brasil que é revisitada nos poemas Pau Brasil. Nos poemas intermídia de Lino, bem como nos poemas-piada que compõem O Kit de Sobrevivência do Descobridor Português no Mundo Anticolonial, o riso e o humor propiciam a poeta a “cantar” outros cantos distintos dos já anunciados por toda a tradição poética portuguesa. Tanto em Lino quanto em Oswald, a paródia é elemento derrisório fundamental para a desconstrução de discursos cristalizados. Embora separados pelo Atlântico e por quase 100 anos, ambos os poetas apresentam poemas que propiciam criar lugares de encontro de dissidentes, bem como de dialetos, cores e identidades por meio do cruzamento de culturas, línguas e textualidades. Logo, Lino e Oswald possuem dicções que se aproximam, o que revela o caráter exofônico de ambos graças às estratégias de mobilidade e de migração de seus poemas.


Renata Soares Junqueira – Um diálogo (feminista) de Paula Rego com o Brasil

Esta comunicação pretende ler como feminista a obra pictórica da artista luso-britânica Paula Rego (1935-2022), propondo uma reflexão sobre a resistência ao patriarcado em alguns dos seus quadros e uma análise breve da tela A Primeira Missa no Brasil (1993), que dialoga tacitamente com a homônima pintura histórica exposta pelo brasileiro Victor Meirelles no Salão de Paris em 1861. Como se sabe, a icônica tela de Meirelles suscitou réplicas como a de Cândido Portinari (1948), que esgarça a construção romântica oitocentista para denunciar o colonialismo predador dos portugueses, patente desde a célebre Carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel, texto inspirador de Victor Meirelles. A leitura, bastante original, que Paula Rego faz desse episódio inaugural da empreitada colonial portuguesa no Brasil é feminista porque aponta as consequências, para as mulheres – tanto para as que ficaram em Portugal, abandonadas pelos maridos ou amantes, quanto para as indígenas brasileiras, que os colonizadores miraram desde logo com olhos de estupradores – do avassalador empreendimento patriarcal que foram as Grandes Navegações portuguesas.


Rodrigo Xavier – Ilustres incógnitas: o caso das mulheres poetas em periódicos brasileiros dos anos 1930/40

Esta apresentação aborda a presença de escritoras portuguesas no periódico brasileiro Vida Portuguesa. Muitas dessas poetas que publicam textos na referida revista eram desconhecidas do público-leitor no período de circulação da revista, mesmo em Portugal. Outras, ainda são figuras incógnitas, mesmo quase um século depois.


Sérgio Nazar David – Novas fontes manuscritas e impressas: releituras Viagens na minha terra, de Almeida Garrett

Pretendo demostrar como novas fontes, sobretudo manuscritas, mas também impressas, nos têm permitido redimensionar politicamente a obra-prima de Garrett, Viagens na minha terra (1843-1845-1846). Fontes manuscritas: correspondência ao irmão (Alexandre), correspondência a Rodrigo da Fonseca Magalhães, diário de Rodrigo da Fonseca Magalhães (ainda inédito). Fonte impressa: Memória histórica da duquesa de Palmela. Tal cruzamento de fontes nos permite: avaliar melhor a posição de Garrett perante a cisma com a Santá Sé (final dos anos 30); mais à frente também (anos 40) distinguir as suas movimentações nas disputas entre cartistas duros (cabralistas) e cartistas progressistas, nas guerras civis (Maria da Fonte e Patuleia) e no ocaso do reinado de D. Maria II.


Silvia Quinteiro – Turismo Literário: desafios contemporâneos e caminhos de sustentabilidade

A comunicação analisa os desafios que o turismo literário enfrenta no panorama contemporâneo, entre a expansão acelerada das práticas e o risco de mercantilização cultural. Reflete-se sobre a necessidade de garantir a autenticidade e a profundidade da experiência literária, evitando a sua redução a mero consumo de imagens e lugares icónicos. Defende-se que a sustentabilidade deste setor depende de uma formação qualificada e da certificação dos produtos e experiências, assegurando padrões de qualidade e ética. São apresentados exemplos de boas práticas e modelos colaborativos entre academia, instituições públicas e agentes privados. O turismo literário é, assim, abordado como um campo de ação crítica e educativa, no qual a literatura se transforma em ferramenta de mediação cultural e de desenvolvimento sustentável.


Vanda Anastácio – Uma História e Amor aos livros: a biblioteca de obras raras de José V. de Pina Martins

Entre o final dos anos 1980 e 2010, a biblioteca de José V. de Pina Martins ficou célebre entre os intelectuais luso-brasileiros. Instalada no último andar do prédio onde morava, em Lisboa, era vista como um lugar de exceção. A Biblioteca de Estudos Humanísticos, como o Professor gostava de lhe chamar, foi o resultado de quase meio século de um esforço contínuo, paciente e dedicado. O projecto de a formar data de 1951, quando Pina Martins frequentava o Curso de Biblioteconomia da Biblioteca do Vaticano. Ao escolher reunir obras sobre o Humanismo do Renascimento, Pina Martins escolheu também estudar um momento particular da história da cultura escrita e da transmissão textual: a época da invenção da imprensa de tipos móveis e da expansão do livro. Esta comunicação procurará ilustrar o do como o fez e o resultado a que chegou.


Vima Lia de Rossi – Ensino da literatura portuguesa no Brasil: criticidade, criatividade e emancipação

É consenso entre especialistas que o ensino de literatura, quando realizado de maneira tradicional, privilegiando a transmissão de informações em detrimento das experiências de leitura, pouco tem a acrescentar na formação humana dos estudantes. Sendo assim, pelo menos duas questões fundamentais se colocam para professoras e professores que ensinam literatura portuguesa: como ensinar essa literatura, do ponto de vista metodológico, e que autores/as e textos escolher para orientar e sustentar esse ensino, tendo em vista a formação de leitores sensíveis e críticos a partir de um repertório representativo das diferentes vozes que configuram o sistema literário português. Nossa comunicação discorrerá brevemente sobre essas questões a partir da contribuição de diferentes autores, em especial de bell hooks e Benjamin Abdala Jr.