Resumos

Alex Gonçalves Varela – A Biblioteca do Médico-Botânico Joaquim Monteiro Caminhoá (1838-1898) e o Predomínio dos Livros Científicos

Joaquim Monteiro Caminhoá (1838-1898) foi um cientista que atuou no Império do Brasil. Estamos nos dedicando a estudar a sua trajetória acadêmica, que ainda não foi devidamente estudada, bem como as suas produções científicas, que ainda não foram analisadas profundamente. Dessa forma, há lacunas que precisam ser preenchidas pelos estudiosos da História das Ciências. O levantamento das produções do personagem em bibliotecas e arquivos nos possibilitou localizar o manuscrito O Catálogo dos Livros da Biblioteca do Conselheiro Caminhoá (S/a., S/d., S/l.), na Seção de Manuscritos da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Teremos como objetivo principal realizar uma análise crítica da referida fonte documental, uma vez que nos permite observar a constituição da biblioteca do referido personagem. Ela nos permite compreender as escolhas e o universo das leituras do estudioso. O catálogo apresenta um total de 333 (trezentos e trinta e três) obras que integraram a biblioteca do mencionado médico-botânico. O documento fornece indícios sobre a circulação e posse de livros, mas não sobre as práticas de leitura e muito menos sobre as possíveis apropriações dos materiais lidos – se é que todos os títulos arrolados foram lidos por Caminhoá. No nosso caso, temos um catálogo de uma biblioteca particular ou privada, uma vez que foi criada e sustentada pelo cientista Joaquim Monteiro Caminhoá, para seu uso exclusivo, e sem recursos públicos. O proprietário era um homem livre, branco, do sexo masculino, letrado, médico-botânico, integrado às instituições científicas imperiais, aprovado por concurso público, e detentor de títulos militares, de honra e mercês. Portanto, um homem de perfil elitizado. A face de investigador das ciências transparece na listagem, uma vez que predominam os títulos de História Natural, sobretudo os de Botânica, temas pertinentes às necessidades profissionais da especialidade do cientista. Nos títulos botânicos ganham destaque a presença de um autor brasileiro, Francisco Freire Alemão, um dos mais proeminentes homens da Botânica no Império do Brasil. Além disso, os títulos presentes no catálogo mostram que o cientista tinha em sua biblioteca as obras dos mais importantes homens de ciência, aqueles que atuavam nos principais centros científicos europeus e difundiam o que de mais moderno havia no campo científico. Assim, por meio dos livros que compunham a sua biblioteca, acreditamos que Caminhoá era um estudioso que estava antenado com as modernas teorias científicas na área para a qual se dedicava, a Botânica.


Ana Paula Silva – Escrever-se em pedaços: a poética do eu em Golgona Anghel

A poesia de Golgona Anghel se constrói como um espaço de confronto entre corpo, linguagem e memória. Em seus textos, o eu poético não se apresenta como entidade coerente ou transparente, mas como uma figura em constante tensão e desdobramento. A presente comunicação propõe analisar essa dinâmica a partir da noção de autorretrato, entendendo-o não como representação mimética, mas como gesto reflexivo e performativo, um ato de escrita que problematiza a própria possibilidade de se dizer “eu”. Através dessa perspectiva, busca-se compreender como Anghel elabora uma escrita de si que se constitui pela fragmentação, pela ironia e pela consciência da impossibilidade de um sujeito estável. Ao longo da tradição ocidental, o autorretrato, tanto na pintura quanto na literatura, foi compreendido como tentativa de fixar uma identidade, de dar forma visível a um rosto interior. No entanto, todo autorretrato é atravessado por um paradoxo: ao tentar capturar a imagem do eu, o sujeito se vê confrontado com sua própria ausência e com o caráter efêmero da identidade. Essa tensão é radicalizada na modernidade, quando a figura do sujeito unificado dá lugar a uma consciência fragmentada e dispersa. Na poesia de Golgona Anghel, essa crise do eu se traduz formalmente por uma linguagem descontínua, feita de cortes, sobreposições e ironias, que desmonta as expectativas de transparência e confissão. A ideia de autorretrato aqui mobilizada parte também das reflexões sobre o pacto autobiográfico, mas para, em seguida, deslocá-las. Se na autobiografia há um acordo entre autor, narrador e personagem, garantindo uma certa unidade identitária, na poesia de Anghel esse pacto se desfaz. A voz poética não coincide com um sujeito empírico, mas opera como experiência de alteridade, em que o eu se enuncia por meio de máscaras, vozes sobrepostas e imagens contraditórias. Em vez de narrar uma história pessoal, Anghel transforma o próprio ato de escrever em espelho fragmentado, um espelho que reflete não o rosto, mas o vazio, a falha, o resto. Nesse sentido, o autorretrato em Golgona Anghel é menos a expressão de uma interioridade do que a exposição de uma ferida, uma tentativa de dizer-se sabendo que toda nomeação é insuficiente. Nos livros de Anghel, especialmente em Como uma flor de plástico na montra de um talho, essa poética se manifesta em múltiplos níveis. O corpo, frequentemente evocado, aparece não como lugar da plenitude, mas como superfície de inscrição simbólica, atravessada por experiências de dor, de erotismo e de deslocamento. Em muitos poemas, o corpo é despedaçado, metáfora da identidade em ruínas e da linguagem incapaz de recompor o todo. A imagem da flor de plástico, por exemplo, sugere a tensão entre o artifício e o orgânico, entre o belo e o grotesco, marcas centrais da poética de Anghel. O título já anuncia essa ambiguidade: uma flor que não murcha, mas também não vive; uma aparência de vida dentro de um espaço de morte. Essa estética da contradição reflete também uma dimensão crítica e política da escrita. Ao expor o eu como campo de ruína e reconstrução, Anghel questiona modelos de identidade normativos, fundados na coerência e na permanência. A poeta propõe um modo de escrita em que o íntimo se abre ao coletivo e o biográfico se torna um lugar de resistência simbólica. O autorretrato, portanto, não é apenas uma forma de expressão pessoal, mas uma estratégia de descentramento, um modo de repensar o lugar do sujeito e do corpo feminino na linguagem. A ironia desempenha papel fundamental nesse processo. Longe de enfraquecer a dimensão afetiva da poesia, ela a torna mais complexa, pois funciona como ferramenta de distanciamento e autocrítica. Em vez de afirmar uma verdade do eu, Anghel desconfia das formas de autenticidade e revela o caráter performativo de toda identidade. O sujeito que fala em seus poemas sabe-se em cena, sabe que escreve diante do espelho rachado da linguagem. Assim, o autorretrato em Golgona Anghel configura-se como um exercício de autodefinição impossível. A poeta não busca fixar uma imagem, mas expor o processo de sua constante dissolução. Entre o sagrado e o grotesco, entre o íntimo e o político, sua poesia encena a fragilidade da existência contemporânea e a potência crítica da linguagem poética. Ao analisar essa escrita de si em fragmentos, torna-se possível compreender que o autorretrato, mais do que representação, é aqui uma forma de pensar a identidade como acontecimento, como algo que se faz e se desfaz no próprio ato da enunciação. Em tempos de descentramento subjetivo e saturação imagética, a obra de Anghel oferece uma reflexão profunda sobre o modo como a poesia pode ainda dizer o eu, não para afirmá-lo, mas para expor suas fendas, limites e silêncios. Trata-se, portanto, de uma poética que devolve ao autorretrato sua dimensão ética: o gesto de olhar-se sabendo que o espelho nunca devolve a mesma imagem.


Andresa Ferreira Oliveira – O corpo e a literatura na História em Caderno de Memórias Coloniais

Um dos primeiros tópicos abordados nos estudos sobre Literatura é a diferença entre a realidade e a ficção, o que é História e o que é história. Logo, entende-se que a Literatura não tem a obrigação de narrar os fatos fidedignamente como a História, embora a literatura de testemunho constitua um contraponto intrigante para estas primeiras lições. Isso ocorre pois, embora se trate de entidades separadas, a literatura de testemunho “ao mesmo tempo em que partilha com a literatura o seu procedimento, sua abertura para a linguagem, o testemunho veicula também uma crítica da postura que força a realidade ao puro texto, onde tudo é ficção e tudo é relativo” (KLEIN, 2010, p. 2). Portanto, a linha limítrofe com a realidade torna-se mais turva, criando uma área de convivência problemática e sensível entre as duas áreas. Em “Leituras da História: facto e ficção no romance”, João Barrento apresenta as diferenças entre o trabalho do historiador e do romancista. Um aspecto a se levar em consideração em ambos os discursos, é a presença da subjetividade que tanto o historiador quanto o romancista carregam consigo enquanto característica humana. Segundo a tabela de Franz Kain reproduzida por Barrento, História e ficção têm aspectos complementares: o historiador descobre as causas e o romancista dá forma aos efeitos, uma contribuindo com a outra. Inserir Caderno de Memórias Coloniais na literatura de testemunho coloca a nós, leitores, em uma posição limiar entre História e ficção. Isabela Figueiredo, por meio de suas memórias, nos coloca sob a pele da filha de um colono, destrinchando esta parte da História do colonialismo português através de recursos próprios à literatura. Faz isso  trazendo o corpo para o centro da cena, apresentando-o  como palco principal dos acontecimentos. Como se lê em Palavras Prévias: “No princípio eu era de carne e estava na terra. Começou assim. Não pensei em mim como rapariga nem como branca nem como rica ou pobre. Não pensei porque não era preciso. Eu era de carne e estava na terra” (Figueiredo, 2018 p.7). Nesta construção, Isabela diminui a diferença indicada por Barrento entre o historiador e o romancista, uma vez que, ao escrever, tem a possibilidade de provocar, no leitor, as  sensações descritas, vividas. Efeito esse que, em contrapartida, também contribui para o surgimento de novos ângulos da História, escovando-a a contrapelo, compondo um vitral de vivências históricas subjetivas, cada vez mais complexo.  A experiência e o tempo, matéria primordial da História, são, precisamente, construídas por humanos, sujeitos de carne e osso, uma perspectiva que a literatura, neste caso, O Caderno de Memórias Coloniais, apresenta de maneira muito elucidativa. Concomitantemente, outra característica que aproxima a História e a literatura de testemunho aqui tematizada consiste no tratamento dado com relação ao distanciamento dos acontecimentos narrados: ora Isabela foca nas sensações vividas, ora via a lembrança com distanciamento. Escrevendo as memórias sempre em après-coup, em retrospectiva, por meio de uma temporalidade  dupla, (Seligmann-Silva 2005, p.105), o texto apresenta o “personagem” que vivenciou a experiência relatada  e a “narradora” que observa o momento anos à frente, muitas vezes completando a narrativa com fatos e histórias paralelas, as quais não testemunhou, de maneira semelhante à atividade historiadora. Por meio destes recursos, a autora tanto é capaz de discorrer sobre suas memórias quanto carregar o leitor para o período em que elas se passam, colocando mais uma vez a sua história e a História em diálogo enquanto faces de uma mesma moeda.


Andressa Rebeca do Nascimento Barroso – Entre bebida e cativeiro: o cânone na literatura do século XIX

Esta comunicação se propõe a investigar a materialização da relação entre escravidão, hábitos sociais e a representação da cachaça na formação do romance brasileiro, com o objetivo de revisitar o cânone literário nacional e ampliar as discussões sobre a temática da escravidão e da cachaça, ambos vistos como mercadoria, no século XIX. O corpus abrange tanto obras canônicas, como: A Moreninha (1844), de Joaquim Manuel de Macedo, quanto romances marginalizados pela historiografia literária como foram: O Filho do Pescador (1843), As Tardes de um Pintor (1847), ambos de Teixeira e Sousa, e os textos presentes na coletânea Romances e Novelas (1852), de Joaquim Noberto de Souza Silva. Todos os textos serão analisados em suas primeiras edições e cotejados com críticas coetâneas publicadas na imprensa periódica. O referencial teórico dialoga com os estudos sobre a formação do cânone propostos por Antonio Candido (2000); José Veríssimo (1998), Alfredo Bosi (1998); a história social das bebidas no Brasil, desenvolvida por Câmara Cascudo (2015); a discussão sobre literatura e escravidão proposta por Paulo Oliveira (2025) e Lilia Moritz Schwarcz (2013; 2024). A hipótese central é que essa análise temática revelará, nos textos não canônicos, matizes e contradiscursos frequentemente apagados, permitindo não apenas uma reavaliação da representação literária da escravidão, mas também uma compreensão mais complexa do processo de marginalização simbólica de certas obras e temas no interior da tradição literária brasileira.


Antonia Raiane Santos Silva e Izenete Nobre Garcia – A França como farol: imprensa, serialização e a formação do leitor maranhense no século XIX

Na contemporaneidade, a imersão na era do streaming redefine os modos de fruição estética e consumo cultural por meio da lógica da fragmentação e da serialização. No entanto, esse mecanismo de “consumir em pedaços” não constitui uma prática inédita, já no século XIX, o público demonstrava intensa adesão às narrativas seriadas, especialmente aos folhetins. Essa prática de leitura em partes era um hábito social compartilhado, funcionando como o principal motor para a construção de um público leitor local, uma vez que o acesso aos volumes encadernados era restrito; assim, a publicação fragmentada no jornal facilitava o acesso da população a conteúdos que, de outro modo, seriam financeira e logisticamente inacessíveis. Tomando esse cenário como ponto de partida, este trabalho investiga o processo de formação da intelectualidade maranhense, que utilizou a cultura francesa como farol para a construção de uma sociedade culta. O foco da análise reside no impacto da produção francesa na imprensa maranhense, especificamente no jornal O Globo (1889-1890). Investiga-se como o periódico atuou como mediador cultural, importando modelos estrangeiros para formar o gosto e promover o desenvolvimento intelectual na província. A pesquisa propõe, ainda, uma revisão crítica da historiografia literária ao resgatar autores e produções populares que, embora fossem a base do consumo da época, acabaram marginalizados pelo cânone. Ao descentralizar o olhar do eixo Rio-São Paulo, o estudo reafirma o papel da imprensa na democratização da leitura e na consolidação da imprensa maranhense sintonizada com os debates de seu tempo. A metodologia adota uma abordagem quali-quantitativa. A fundamentação teórica pauta-se nos estudos de Abreu (2006), Barros (2023), Candido (2007), Hallewell (2017) e Meyer (1996).


Ariana de Carvalho Mesquita e Suely Franco – O Gabinete e a cidade: presença simbólica e documental do Real Gabinete Português de Leitura no patrimônio urbano do Rio de Janeiro

O Real Gabinete Português de Leitura (RGPL), fundado em 1837 no Rio de Janeiro, constitui-se como uma das mais emblemáticas instituições culturais da cidade, não apenas por sua arquitetura neomanuelina e por seu vasto acervo bibliográfico, mas sobretudo por sua dimensão simbólica e documental na construção das relações luso-brasileiras. Este trabalho propõe analisar o RGPL como um lugar de memória inserido no patrimônio urbano carioca, compreendendo-o como um espaço socialmente produzido e continuamente ressignificado ao longo do tempo. A investigação parte do diálogo com referenciais teóricos que problematizam as relações entre memória, espaço e patrimônio, em especial as contribuições de Henri Lefebvre, Michel de Certeau e Pierre Nora. A partir dessas abordagens, entende-se o espaço não como um dado neutro, mas como resultado de práticas sociais, relações de poder e construções simbólicas. Nesse sentido, o Real Gabinete é analisado como um espaço vivido, apropriado por diferentes públicos ao longo de sua trajetória, e como um lugar no qual determinadas memórias são reiteradas e institucionalizadas. Metodologicamente, o trabalho articula pesquisa bibliográfica e investigação documental. A pesquisa insere-se no âmbito do Programa de Bolsas de Pesquisa do Real Gabinete Português de Leitura, desenvolvida no contexto da Bolsa Antônio Gomes da Costa, o que possibilita o acesso sistemático a fontes institucionais, acervos documentais e atividades acadêmicas promovidas pela própria instituição. São analisados estudos fundamentais sobre a instituição, como o artigo de Angela Maria Cunha da Motta Telles e Raquel Soares Lopes, que interpreta o edifício do RGPL como palco de eventos políticos e culturais relevantes nas relações Brasil–Portugal ao longo do século XX, bem como o texto de Mario Luis Grangeia, que discute a imigração portuguesa no Brasil a partir das memórias sociais e das disputas por reconhecimento e direitos. Soma-se a essas leituras a consulta à obra institucional O Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro (2018), que oferece uma visão histórica e simbólica da instituição, destacando sua fundação, seus usos e suas transformações ao longo do tempo. A pesquisa documental inclui ainda a análise do acervo digital O Real em Revista, dos catálogos históricos e de documentos institucionais, como estatutos sociais e registros honoríficos, com o objetivo de compreender como o próprio Gabinete construiu uma narrativa simbólica em torno da presença portuguesa na cidade. Paralelamente, realiza-se um levantamento de textos e periódicos dos séculos XIX e XX, especialmente por meio da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, buscando identificar de que maneira o RGPL foi representado no imaginário carioca e associado a eventos políticos, culturais e intelectuais. Os resultados preliminares indicam que, desde sua fundação, o Real Gabinete desempenhou um papel central como espaço de sociabilidade das elites luso-brasileiras, funcionando como local de legitimação simbólica da presença portuguesa no Brasil. Ao longo do tempo, seus usos foram sendo transformados: de espaço marcado por relações diplomáticas, políticas e comerciais, o RGPL passa a se afirmar, sobretudo a partir do final do século XX, como um polo intelectual e cultural, associado a projetos de pesquisa, colóquios e atividades acadêmicas que ampliam sua visibilidade e atraem novos públicos. Conclui-se que o Real Gabinete Português de Leitura deve ser compreendido como um lugar de memória ativo no espaço urbano do Rio de Janeiro, cuja relevância não se restringe à preservação material, mas se manifesta na produção contínua de sentidos, identidades e representações. Ao analisar suas dimensões documentais e simbólicas, o trabalho contribui para refletir sobre o papel das instituições culturais na construção do patrimônio urbano e das memórias coletivas, evidenciando as permanências e ressignificações que marcam a trajetória do RGPL na cidade.


Beatriz Fernandes Nodari – Para sempre ou uma odisseia pelas memórias

Em “Para sempre”, romance de Vergílio Ferreira, deparamo-nos com Paulo, um homem que no final de sua vida retorna à casa em que cresceu e, ao longo de uma tarde, percorre por todo seu passado, ao vagar pelos cômodos de seu antigo lar. Uma das temáticas centrais da obra é a passagem do tempo, o sentimento conflitante que passeia entre a nostalgia do passado e a angústia do fim que se aproxima, de modo inevitável, como uma condenação. Em meio às reflexões existenciais que tece ao longo da narrativa, como se estivesse a compor um ensaio, o narrador-personagem se volta sempre a uma questão que parece ser fundamental ao romance, a última coisa que sua mãe lhe disse antes de morrer, ainda em sua infância. Esse episódio ecoa ao longo de toda a narrativa, como uma repetição concreta, em que Paulo está sempre a se perguntar o que foi que ela disse, mas também como um questionamento mais profundo que o move, uma busca incessante não só pelas palavras de sua mãe, mas uma espécie de palavra original, uma primeira palavra. Pensar a relação de Paulo com a palavra toca, inevitavelmente, na sua relação com bibliotecas, uma vez que exerceu a profissão de bibliotecário – nas palavras de sua filha, Xana, passando a vida a “cheiriscar palimpsestos”. O seu universo, portanto, assim como na frase de abertura de “A biblioteca de Babel”, conto de Jorge Luis Borges, pôde ser chamado durante muito tempo de biblioteca, mas agora, vivendo seus últimos dias, descreve os livros como túmulos, com um certo desdém, um certo cansaço. O livro enquanto objeto não é mais onde se concentra sua busca, deslocando-a às ruínas de sua casa, lugar em que vagam os fantasmas de todos aqueles que viveram ali e fizeram parte de sua vida. É a partir do que sobrou, do que ainda resta no presente mas carrega vestígios do que um dia foi, que Paulo passa a ter sua própria história como objeto, sendo leitor de si mesmo e de sua vida, sempre a relembrar – tanto o passado como também se pondo, em alguns momentos, a imaginar seu futuro – assumindo a posição de terceira pessoa, assistindo a si mesmo e aos outros. O presente trabalho busca ler o romance a partir da memória e da biblioteca como elementos fundamentais para a construção da narrativa vergiliana, não só como parte da temática mas também em nível estrutural, partindo da leitura cerrada de trechos selecionados do livro.


Beatriz Lopes Prats – Pensar em Herberto: uma expansão da escrita em Helder e Ana Cristina César

Segundo Mikhail Bakhtin (1979/ 2016), ambos os agentes de um discurso (autor e leitor) participam ativamente do processo de realização de um texto, uma vez que “toda compreensão é prenhe de resposta, (…) o ouvinte [ou leitor] se torna falante” (Bakhtin, 2016 , p. 25) ao se deparar com um enunciado alheio. A partir da atenção ao outro, aquele que lê ou escuta produz a sua própria comunicação, a sua obra, a sua resposta, que é, afinal, o seu texto. Assim, conforme o pensador russo, todo texto se oferece como parte do acervo de um determinado autor ou obra e dispõe do outro como elemento constitutivo de sua biblioteca de influências. Nessa linha de sentido, vemos que, para analisar uma peça literária da autoria de alguém, é interessante escutar as outras vozes que atravessam seu caminho. Como parte do objetivo deste trabalho, lançamos-nos assim à seguinte pergunta: quem faz parte da biblioteca de um autor? A resposta, que busca traçar uma linha de influências, pode não ser fácil ou definitivamente mapeável, embora possa ser suposta em determinados casos. No presente trabalho, nos aventuramos a traçar a possível relação entre poemas de Herberto Helder e de Ana Cristina César, respectivamente autores português e brasileira, como hipótese comparativa para se compreender qual é o papel da escrita segundo as ideias afirmadas em suas literaturas. Um texto pode funcionar como fonte de leitura do outro – e para quê? De acordo com a pesquisadora Maria Lúcia de Barros Camargo (2003), Ana C. César realiza o procedimento de intertextualidade categorizado como vampiragem, no qual a autora se apropria de textos alheios e os atualiza em seus próprios. No curto poema de verso titular “Sem você bem que sou lago, montanha” – oriundo da obra A teus pés (1982), de Ana C. César – é possível observar projeto semelhante. Um eu lírico se endereça ao sujeito ou coisa representada pela segunda pessoa do discurso (“você”) e diz pensar “num homem chamado Herberto” (Cesar, 2016, p. 25). Desta constatação, a voz do texto realiza uma série de ações que culminam em um ato de expansão de um sentimento ou de uma experiência. E embora não esteja comprovada uma relação intertextual direta entre César e o autor português nesse texto, na obra de Helder também se observa um procedimento similar de compreensão da escrita – sobretudo categorizada enquanto “estilo” nos seus livros Os passos em Volta (1963) e Photomaton & Vox (1979) – como maneira de se esvaziar e de, consequentemente, aumentar uma vivência de mundo. Dessa maneira, a partir do que faz e do que pensa esse eu poético, e considerando a coincidência entre os nomes, pensamos na possibilidade de haver certa influência helderiana no poema e no procedimento de escrita de Ana Cristina César. Supomos: e se Herberto Helder tiver sido vampirizado pela voz de Ana Cristina César como fonte, veia literária e caminho de atualização dessa poesia? Ao propor essa aproximação, nosso objetivo é ler o texto de Ana C. César de uma maneira helderiana e, em certa medida portuguesa, atentando-nos às suas semelhanças e diferenças em relação a essa possível fonte. E especialmente, procuraremos demonstrar como, na obra dos referidos autores, sobretudo da autora, o sentimento de expansão gerado pelo poema resulta da concepção de que a escrita (a linguagem poética, um livro, um texto) pode criar, para o sujeito que a inventa, um caminho para lidar com perdas, desordens e ausências. Nesse sentido, lançaremos mão de autores críticos, separadamente, das obras de Herberto Helder e de Ana C. César, e pensaremos, com Bataille (1957/2021) como desejo e ausência podem estar imbricados nessa literatura.


Beatriz Martins Caetano e Clarissa Peres Nitto GrilloAs rasgaduras das imagens em “Caim”, de José Saramago

O romance “Caim” reconta episódios do Antigo Testamento sob o ponto de vista de Caim, o personagem bíblico condenado por matar seu irmão Abel. Após o crime, Caim passa a vagar pelo mundo e, de forma fantástica, atravessa diferentes tempos e acontecimentos bíblicos. Ao longo da Jornada, Caim questiona diretamente Deus, a ideia de uma imagem divina absolutamente justa e bondosa, sugerindo que muitas violências atribuídas aos homens são, na verdade, legitimadas pela manifestação de Deus. A Jornada de Caim é marcada pela abertura da representação imagética que Didi-Huberman (2015) disserta em seu livro “Diante da Imagem”. Assim, guiado por estes conceitos e pelo teórico citado, o presente trabalho pretende percorrer e analisar a obra com objetivo de apresentar a importância das imagens para a construção narrativa do romance. Além disso, pretende-se debater as desconstruções das personagens bíblicas, principalmente Deus e o próprio Caim, a fim de realizar uma análise comparativa com a Bíblia e verificar os mecanismos imagéticos presentes no romance.


Caio Dias de Castro – Aprendiz de feiticeiro, janela para o arquivo literário de Carlos de Oliveira

O poeta e prosador Carlos de Oliveira destacou-se por suas obras que, ao longo de seu conhecido processo de reescrita, ultrapassaram a linguagem neorrealista, realizando uma construção mais fragmentada e psicológica de seus personagens e acentuado lirismo em comparação a outras obras do movimento neorrealista português. Falecido em 1981, seu espólio literário foi somente doado ao Museu do Neorrealismo cerca de 30 anos depois, sendo possível a re-elaboração interpretativa de sua obra através de materiais ali reunidos, alguns inéditos como cartas, fotografias, entrevistas, entre outros documentos. Em relação a esse acervo catalogado no Museu do Neo-Realismo (Vila Franca de Xira), é possível compreender sua obra “Aprendiz de Feiticeiro” (1971) como exemplo de arquivo literário em movimento, funcionando metaforicamente como uma “janela” para o laboratório do autor, mesmo antes de sabermos da existência de um arquivo material. Portanto, por esta “janela”, transmite-se uma ideia documental que não se limita à tradição neorrealista, através de aspectos literários que jogam com o “interdito”. Pensar esse livro como “janela” sagnifica também repensar sua obra, principalmente sua poesia, encarando-a como uma resistência proveniente da própria escrita que se constrói  a partir da memória (GUSMÃO, 2010). Ademais, a partir desta ótica, é possível conceber a própria poética do autor como um processo metalinguístico e intertextual do fazer poético, discutindo os limites da linguagem em relação a outros procedimentos artísticos, como, por exemplo, o cinema, viés artístico tão crucial para a elaboração descritiva em Carlos de Oliveira, por conta do controle temporal exercido em sua escrita como também do enquadramento de paisagens para manutenção do espaço (SARMENTO, 2009), transformando sua “janela” em uma tela em movimento. Sendo assim, tendo em vista a importância desse acervo e da respectiva obra para a cultura literária portuguesa, com materiais que refletem por dentro a vida artística no século XX e servem de base para uma maior compreensão do projeto literário de Oliveira, nosso Grupo de Pesquisa vem estudando e analisando questões e processos que aí se revelam. Deste modo, o presente trabalho busca apresentar e discutir a ideia de arquivo para a leitura de O Aprendiz de Feiticeiro (1971), tecendo relações comparativas com a poesia do autor. Consideramos também as concepções teóricas de Arquivo, seguindo  Taylor (2003), visando enxergar os signos presentes em sua obra como, especialmente, espólio vivo que dialoga com os próprio cenário psicológico do autor, como também acervo da cultura e poesia portuguesa do século XX.


Caroline Meneses Domingos – O fazer literário nas reflexões escritas de um narrador-pintor

Sabemos que o ser humano sempre formulou representações ao longo de sua existência, procurando dar forma a sensações, pensamentos e angústias. Primeiramente, se pensarmos o movimento representativo como concretizado pela imagem, podemos dizer que seus impulsos foram e são visuais. Posteriormente, se pensarmos na escrita, podemos ampliar o entendimento sobre o que consideramos representação e pensamento. Pois, se as palavras atuam como invólucros substitutivos de ideias e experiências, também são elas capazes de pintar quadros que evocam imagens mentais claras e em constante processo de modificação. Assim, procuramos, neste trabalho, recorrer aos apontamentos de Didi-Huberman (2013) e Chaui (1988) a fim de desenvolver reflexões sobre a compreensão do objeto artístico, a rasgadura da imagem, a intencionalidade do olhar (do artista e receptor) e a impossibilidade de retratação fidedigna da realidade. Para esse exercício de leitura, a obra “Manual de Pintura e Caligrafia” (1977), de José Saramago, à luz dos teóricos expostos, parece ser pertinente. O romance de Saramago apresenta um narrador-personagem que utiliza de uma forma ensaística para indagar-se acerca do fazer artístico, mais especificamente da impossibilidade de recriar fielmente a realidade através da representação imagética da pintura. A partir deste impasse transformado em angústia, o narrador recorre à escrita como uma forma “ilimitada” de apresentação do objeto e um suporte no qual pode modificar constantemente o retrato da realidade por meio da construção sucessiva da escritura. Com isso, entendemos que a obra coloca reflexões sobre o fazer meramente técnico do artista, a faculdade do olhar como conhecimento e a pintura como a retratação não fidedigna do visível, contexto no qual esperamos contribuir com novos olhares que forneçam modos de melhor compreender a angústia do narrador e a relação entre a imagem e o fazer literário.


Daniel Cavalcanti Pimentel – Nelson flâneur Rodrigues carioca: apontamentos de pesquisa

Não há um único Rio de Janeiro para Nelson Rodrigues. A noção segundo a qual o escritor cria uma cidade plural orienta este trabalho, cujas reflexões iniciais foram publicadas no breve ensaio de minha autoria “Nelson Rodrigues, um flâneur carioca” (2025), no âmbito do projeto Páginas paisagens luso-brasileiras em movimento. Na condição de pesquisador bolsista, propus questões, algumas inescapáveis do universo rodriguiano e outras que destacam elementos menos explorados da sua obra, especialmente sobre a relação do autor com a paisagem urbana carioca do século passado. A flânerie talvez forme a ligação entre esses dois grupos de questões. Trata-se de uma prática com significados associados, cunhada por oitocentistas como o poeta francês Charles Baudelaire (2006) e o cronista brasileiro João do Rio (2013). O hábito de caminhar a esmo pelas ruas da cidade foi reproduzido por Nelson Rodrigues na metade do século XX, época em que ele parece melhor ambientar sua prolífica obra. O ofício de jornalista, herdado do pai, Mário Leite Rodrigues, foi uma espécie de ponto de partida para o escritor de olhar aguçado, sempre em busca do extraordinário no cotidiano. Incesto, traição, pedofilia e homossexualidade compõem uma lista não exaustiva de temas que preenchem suas páginas, não sem causar escândalo para o público mais reacionário. Nesse sentido, o conservadorismo do projeto literário rodriguiano merece destaque, visto que o autor nunca escondeu sua ideologia católica e moralista. A encenação das peças teatrais, bem como a publicação dos seus contos e livros tinham por objetivo central convencer o público a fazer, no espaço privado do consumo de obras artísticas, a catarse daqueles sentimentos mais impuros. No espaço público, era preciso, segundo ele, agir de acordo com uma ética ilibada. Os termos desse projeto, bem abordado por uma historiografia que tem se dedicado ao autor nas últimas décadas, suscitou o nosso interesse em localizá-lo numa espécie de cartografia literária do Rio de Janeiro. Apoiado na concepção de paisagem em Michel Collot (2013), o presente trabalho identifica na própria cidade do Rio um elemento, se não determinante, decisivo da obra rodriguiana. A circulação das personagens pelos bairros das zonas norte, sul e central orienta seus comportamentos. Resignada em seu endereço de origem, é bem difícil que Glorinha, personagem central d’O Casamento, movimentasse o enredo desta que foi a única novela propriamente escrita por Nelson Rodrigues, publicada originalmente em 1966. O hábito de caminhar – adotado desde muito cedo pelo jovem Nelson, quando ainda era um repórter tem vestígios encontrados na sua ficção. “O homem que caminha é mais livre” (Rodrigues, 2021, p. 185). A afirmativa, colocada na boca do padre católico a quem o pai de Glorinha, Sabino, se confessa, parece sintetizar boa parte do entendimento do autor sobre a flânerie. Para ele, liberdade e necessidade são indiferentes entre si (Szondi, 2004, p. 32). Tal indiferença marca igualmente a noção da tragédia moderna rodriguiana. A possibilidade conferida às personagens de escolher o próprio destino está posta no enredo da novela e distancia o autor de uma concepção clássica do trágico. Todo esse projeto pode ser geolocalizado. As distâncias que formam a região metropolitana do Rio de Janeiro dão conta de estabelecer uma ordem de grandeza em meio aos acontecimentos do romance. Dentro e fora da cidade do Rio, Niterói, Caxias, Copacabana, Engenho Novo e até a Av. Niemeyer condicionam o comportamento das personagens e situam o leitor. A fisiognomonia e uma noção de herói moderno são questões igualmente imprescindíveis que merecem a abordagem deste trabalho. A metodologia adotada nesta pesquisa inclui, além da elaboração de um diálogo entre literaturas primária e secundária, a adoção da iconografia como fonte de pesquisa. Fotografias das décadas de 1950-60, guardadas no acervo do Instituto Moreira Salles, constituíram elemento indispensável à análise ora pretendida. Os modelos humanos, fotografados por lentes como as de José Medeiros e Alice Brill, dialogam com o texto ensaístico. Imbuído de um esforço imaginativo, este trabalho coloca as imagens à serviço do texto e não o contrário. Em outras palavras, era como se os prestigiados fotógrafos do século passado tivessem registrado as passagens ficcionais analisadas. Esse método pretende não apenas estabelecer uma almejada relação intertextual, mas também fomentar o interesse na leitura do projeto Páginas paisagens. Em suma, este trabalho comprova a pluralidade dos corpos, geográficos e humanos, que compõem a obra de Nelson Rodrigues. Ao situar a flânerie novecentista do autor no seio da sua tragicidade moderna, conclui-se que a cidade, de uma maneira ou de outra, continua sendo o palco principal do gênero, desde a pólis grega até os dias atuais. Afinal, o Rio ainda é uma cidade trágica. Essa conclusão abre espaço para futuras reflexões sobre o universo rodriguiano, em almejado diálogo com outros autores do eixo luso-brasileiro.


Domenique Rangel de Oliveira – Ler, reler, tresler: a biblioteca de vozes e silêncios de Ana Luísa Amaral

Desde o seu primeiro livro, Minha senhora de quê (1990), Ana Luísa Amaral fez-se uma poeta que não escrevia só. Partindo do título que desmonta e reescreve com sua linguagem própria as palavras de Maria Teresa Horta, “Minha senhora de mim” – adotando para si o título de senhora da indeterminação – e atravessando três décadas de poesia para a qual sempre convoca uma tradição literária europeia e norte-americana, Ana Luísa Amaral sempre se propôs a escrever com os outros: ler a sua obra poética é transitar por sua biblioteca, folhear alguns dos livros fundamentais à sua formação enquanto leitora, poeta e pesquisadora, e escutar o seu poder de refazer, com os seus versos, versos de Thomas Gray, de Emily Dickinson ou de Camões. O seu trabalho da citação em muito se relaciona ao seu trabalho com os mortos: com frequência, a poeta convoca à sua obra as vozes e os silêncios, duas categorias indicadoras de presença em sua poética, dos mortos que compõem a sua vida e a sua biblioteca. Marlon Augusto Barbosa e João Victor Sanches da Matta Machado (2025, p. 291) se referem ao trabalho de tradução e citação de Ana Luísa Amaral como um gesto de fazer os poemas dizerem “de novo”, de atribuir a outros poemas nova vida; sob essa perspectiva, é possível afirmar que o procedimento da citação compõe, também, uma ética, e permite à poeta atribuir “mais existência” aos mortos, recorrendo às palavras de Virginie Despret em Brinde aos mortos. Em um poema como “Miragens, ou o diário de Virginia”, por exemplo, o sujeito lírico de Ana Luísa Amaral incorpora a voz de Virginia Woolf e encena no poema a sua morte, morte que não poderia ser falada em primeira pessoa senão na literatura, esse espaço que Hélène Cixous situa em Ayaï! como a zona de se “remexer as cinzas, refazer com palavras de frases inauditas, ressuscitar, reanimar o fogo” (2025, p. 40) por excelência. Trata-se de  uma “promoção da existência do morto” (Despret, 2023, p. 14) a um novo modo de ser, nem vivo nem morto, mas literário. Alberto Manguel, em Com Borges, cita Jorge Luís Borges em uma conversa na qual o poeta argentino lhe teria dito que “Com o tempo, […] cada poema se torna uma elegia” (Manguel, 2018, p. 29). O presente trabalho dedica-se a pensar o que essa afirmação pode nos dizer sobre as relações entre o trabalho da citação e o trabalho do luto na poesia de Ana Luísa Amaral; partindo de uma concepção do poema como objeto carregado de tempo que tende a ser legível sob a ótica da morte por ser ele próprio carregado de vozes dialogantes, mortas e redivivas pelo trabalho literário, esta apresentação tem como objetivo explorar como a obra poética de Ana Luísa Amaral pode ser lida como um percurso por uma biblioteca que é também cemitério ou por um cemitério no qual as lápides também são livros; seus poemas são elegias na medida em que operam um retorno dos mortos pelo verso, pela imagem, pelo silêncio.


Edson Junio Melo da Silva – Mercedes Blasco: narrativas e memórias de uma atriz escritora

Com o avanço da modernidade no século XX, a presença das mulheres no campo cultural corroborou com suas participações ativas nas artes, na literatura e na imprensa periódica. Com isso, o trabalho de escrita feminino se torna um meio de profissionalização e reflexão acerca de suas perspectivas na esfera da cidadania e exposições de pensamentos, percepções e memórias de suas experiências pessoais. Debruçando-se em uma análise sobre a escrita feminina nas primeiras décadas século passado, este trabalho objetiva especialmente discutir duas obras dedicadas às memórias de Mercedes Blasco (1867-1961), nome artístico de Conceição Vitória Marques, atriz, escritora e poetisa portuguesa: Memórias de uma Actriz (1907) e Vagabunda (1920). Em Memórias de uma atriz (1907), a portuguesa resgata sua vida desde a infância, ressaltando desde o início a sua vocação para as artes. O desejo, que se inicia como imitações de uma criança, torna-se uma aspiração de uma vida profissional em cima dos palcos. Resgata sua ascensão nos palcos e comenta dramas pessoais entre suas apresentações e digressões por diversos países como França, Reino Unido, Espanha, Itália, Brasil e Bélgica. Vagabunda (1920), a sequência direta do primeiro livro, apresenta uma trajetória de encaixe social da autora a uma vida social tradicional, depois de casar-se com o belga Remi Ghekiere. No entanto, não limitando-se ao cotidiano familiar, a escrita de memórias representa um movimento de resistência em sua identidade patriótica e moral. A obra oferece um recorte de natureza mais íntima dos pensamentos da autora, tocando em assuntos como papéis de gênero, profissionalização e exposição em um cenário social fragmentado de uma mulher que viveu a liberdade pela arte e viu a miséria e a ruptura de perto com a devastação da primeira guerra mundial. Diante disso, esta comunicação busca trazer evidência ao trabalho e ao olhar de Mercedes Blasco. Apesar da notória presença cultural em seu tempo nos palcos, na participação em periódicos e revistas de seu tempo e de menções e reconhecimentos em alguns dicionários literários e antologias como “Poetisas Portuguesas”, de Nuno Catharino Cardoso; a trajetória da autora raramente é discutida na atualidade com a devida atenção. Trazer à luz a figura de Mercedes Blasco é reconhecer outros relatos que compõem o cenário político-cultural europeu e incentivar novas discussões no campo literário feminino.


Emanoely Cristina Lima – Da fragmentação à montagem: o Filme do desassossego (2010) como edição audiovisual

O presente artigo analisa a radicalidade formal de O Livro do Desassossego (LdoD) (1982), de Fernando Pessoa/Bernardo Soares, e o diálogo intermedial que com esse livro estabelece o cinema, nomeadamente a transcriação realizada por João Botelho em O Filme do Desassossego (2010). O LdoD é abordado como um laboratório textual de experimentação da consciência, cuja estrutura fragmentária e ensaística resiste à narrativa convencional e à estabilidade do sujeito. Essa resistência é comparada ao eixo opacidade/transparência do cinema moderno, demonstrando que a recusa da linearidade e da transparência no LdoD se alinha à poética da opacidade cinematográfica, que exibe o dispositivo e questiona a representação. A análise da obra de Botelho revela que a transposição para o cinema não é uma adaptação tradicional, mas um gesto de montagem e uma edição audiovisual que, ao invés de impor unidade, reinscreve a fragmentação literária. Através da voz off em tensão com a imagem e da ênfase na musicalidade do texto, o filme preserva a opacidade essencial do LdoD, deslocando-o para o plano da performatividade. Conclui-se que a articulação entre a forma fragmentária do Livro do Desassossego (1982) e a poética da opacidade no cinema confirma a vocação inacabada da obra pessoana, prolongando a sua capacidade de interrogar o ato de dizer e de ver por meio da mediação estética.


Erick Douglas Nascimento da Silva – Maria Peregrina de Sousa e Henriqueta: resgate de uma escritora oitocentista

Com uma vasta produção no século XIX, Maria Peregrina de Sousa (1809-1894) hoje é pouco conhecida pela crítica e pelo público. A escritora veiculou versos, escritos etnográficos sobre tradições e crendices do Minho, contos, novelas e romances em pelo menos 20 periódicos e almanaques, portugueses e brasileiros. Foram publicados quatro livros com romances da autora: Retalho do Mundo (1859), Radamanto ou A Mana do Conde / Roberta ou a Força da Simpatia (1863), Maria Isabel (1866) e Henriqueta: romance original (1876). Este último foi reeditado e publicado em 2025 a partir de exemplar existente no acervo do Real Gabinete Português de Leitura, com o auxílio dessa instituição, por meio da bolsa de pesquisador júnior. Completando, em 2026, 150 anos de sua primeira publicação, esta comunicação visa apresentar Maria Peregrina de Sousa e Henriqueta, narrativa que traz a personagem título tendo que lidar com a pressão que o contexto sociocultural impunha naquele nos meados de oitocentos às mulheres, bem como o trabalho de edição realizado. São importantes para esse trabalho as pesquisas de Ana Comandulli (2014) e Juliana Mariano (2015, 2020), que dedicaram suas observações a Peregrina, bem como Vanda Anastácio, Anna Klobucka e Michelle Perrot, dentre outros que investigam a literatura feminina portuguesa.


Gabriel Ferraz Martins – Modernos antes do modernismo: diálogos entre Gonzaga Duque e Julião Machado na crítica de arte, sob o olhar de Pedro Xexéo

A comunicação apresenta resultados parciais da pesquisa desenvolvida no âmbito da Bolsa Pedro Xexéo, concedida pelo Polo de Pesquisas Luso-Brasileiras do Real Gabinete Português de Leitura (PPLB/RGPL). A bolsa homenageia o museólogo e crítico de arte Pedro Martins Caldas Xexéo (1943–2024), intelectual que dedicou sua vida ao estudo e à preservação do patrimônio artístico brasileiro. Renomado curador e estudioso da arte brasileira dos séculos XIX e XX, Xexéo cultivou especial interesse tanto por Gonzaga Duque, de quem é reconhecido intérprete, quanto pela caricatura, gênero que apreciava e que promoveu em sua trajetória no Museu Nacional de Belas Artes, onde criou, nos anos 1980, o Núcleo de Caricatura. Como colecionador discreto, Xexéo reuniu obras de Julião Machado e textos publicados por Gonzaga Duque, e, como intelectual, contribuiu decisivamente para o resgate e valorização desses personagens. A exposição “Gonzaga Duque: um crítico no Museu” (2008), bem como sua produção dedicada a caricaturistas — entre eles Manuel de Araújo Porto-Alegre (mais conhecido como pintor, crítico de arte, diplomata e célebre diretor da Imperial Academia de Belas Artes), Julião Machado, Nássara e Mario Mendez — consolidam uma trajetória que ilumina e fundamenta os caminhos desta investigação. Tomando como ponto de partida a antiga distinção entre “artes maiores” (pintura e escultura) e “menores” (gravura, desenho, entre outras), investiga-se como Gonzaga Duque e Julião Machado contribuíram para tensionar hierarquias no universo das artes e ampliaram os limites do que era reconhecido como expressão artística legítima no cenário artístico luso-brasileiro da época. Gonzaga Duque afirma-se como um dos primeiros críticos de arte sistemáticos do Brasil, atento às transformações do mercado editorial e às novas visualidades disseminadas pelas revistas ilustradas. Embora sua produção como crítico de arte se concentrasse nas ditas “artes maiores”, Gonzaga Duque atribuiu valor especial à ilustração e à caricatura, reconhecendo o talento de artistas como Julião Machado. Machado, por sua vez, renovou a estética das revistas ilustradas brasileiras e portuguesas, combinando humor social, ironia refinada e soluções gráficas modernas. Sua atuação evidencia a força cultural da caricatura em um período de intensa circulação transatlântica de impressos e ideias, apesar do gênero ser marginalizado pelos círculos da “alta cultura”. O estudo e a aproximação entre os dois autores revela como crítica especializada e caricatura — em registros distintos, mas convergentes — participam de um mesmo processo de redefinição das sensibilidades modernas. Sob o olhar refinado de Pedro Xexéo, e privilegiando o acervo de revistas ilustradas do Real Gabinete Português de Leitura, a presente comunicação pretende iluminar o papel de artistas e críticos na renovação dos critérios estéticos da arte na virada do século. A apresentação será estruturada em três partes. Em primeiro lugar, será analisada a antiga distinção entre “artes maiores” e “menores” e sua influência sobre o universo da crítica de arte especializada. Na segunda parte, serão examinadas a atuação de Gonzaga Duque como crítico de arte, e de Julião Machado como caricaturista e ilustrador, em estreito diálogo com a produção intelectual de Pedro Xexéo. Por fim, articulando as produções de ambos os autores, serão identificadas as tensões, diálogos e convergências entre crítica de arte e crítica social, através de texto e imagem, evidenciando como esses registros ajudam a compreender a emergência de sensibilidades modernas na arte na passagem do século XIX ao XX.


Gabrielly Porcinia José – Entre memória e testemunho: o lugar de Caderno de Memórias Coloniais

O termo “Literatura de testemunho” é usado para referir-se a obras que refletem sobre situações extremas – como regimes totalitários, guerras ou campos de concentração – narradas por aqueles que as vivenciaram. Como afirma Kelvin Falcão, “(…) o testemunho na literatura evoca, além do ficcional, o histórico, que remete ao contexto localizado no tempo e no espaço de onde emerge o trauma, a violência que o gerou” (Klein, 2010, p. 321). Em nossa apresentação, pretendemos discutir a possibilidade de Caderno de Memórias Coloniais ser inserido nesse subgênero literário. A obra é construída por fragmentos de memórias e reflexões da autora em diferentes momentos de sua experiência colonial: em sua infância em Moçambique como filha de colonos; regresso a Portugal na condição de retornada; sua vida adulta em Portugal, durante a qual elabora e expõe a sua experiência, inicialmente no blogue Mundo Perfeito, depois em livro. Escrita em linguagem sensível, a narrativa emociona ao abordar, além do racismo, a violência do Colonialismo Português, da qual, como a autora afirma em suas “Palavras prévias” (Figueiredo, ano), pouco se falava. Conforme afirma Klein, o testemunho condensa “as fronteiras entre o literário, o fictício e o factual” (Klein, 2010, p.321),( assim, ele) ao utilizar a linguagem na transmissão de uma experiência problematizando a representação via  linguagem e seus limites. Segundo Agamben, o testemunho como categoria literária, questiona as bases da linguagem e do fazer literário, de forma que o sujeito-sobrevivente do trauma está sempre cercado pela impossibilidade de narrar integralmente o que experimentou. “(…) a testemunha, em última análise, não existe, pelo simples fato de que aquele que experimentou o campo de extermínio em sua totalidade está morto, ausente, desprovido de discurso, silenciado”(Agamben apud Klein 2010, p. 324), “testemunha integral é aquele que não podemos ver” (Agamben,2008 apud Klein, 2010, p.324).  O autor esclarece que “a autoridade da testemunha reside no fato de poder falar unicamente em nome de um não poder dizer” (Agamben, 2008 apud Klein, 2010, p.324), ou seja, é mais do que uma memória individual, ele ganha o sentido de memória coletiva ao buscar confrontar os silenciamentos históricos. Entretanto, em contrapondo à ideia de Agamben, de um testemunho marcado pela impossibilidade, Isabela nos apresenta um testemunho configurado pela presença crítica. Em Caderno de Memórias Coloniais, o testemunho é marcado pela urgência ética e política de fazê-lo. A autora confronta o silêncio histórico do colonialismo português, expondo a violência e o racismo presenciados em Moçambique e, ao fazê-lo, transforma a memória pessoal em denúncia coletiva. A escrita, por sua vez, encarrega-se de desestabilizar a memória colonial, dando voz ao trauma, confrontando o legado histórico português e, simultaneamente, transformando tudo em uma confissão íntima. A singularidade do Caderno reside na coincidência existente entre a autora, narradora e personagem. Como observa Madalena Vaz Pinto: “não se trata apenas de uma narrativa em primeira pessoa, de uma estratégia narrativa, mas de um ‘eu’ narrativo coincidente com a autora que vivenciou as experiências relatadas” (Pinto, 2025, p.144) Esse fator reforça e legitima os acontecimentos relatados, afastando-os da pura categoria ficcional. Outro aspecto marcante deste texto e importante de ser citado, é a ambivalência presente na forma de sentimentos contraditórios da protagonista em relação ao pai (Amaral, 2009, p.189). Seu amor filial por ele não a impede de perceber o pai como alguém injusto, racista, revelando a particular complexidade da sua experiência colonial. Em suma, apesar da construção inerente a qualquer obra de linguagem, que a torna uma obra narrativa heterogênea e fragmentada, este livro apresenta características que compõem a categoria “literatura de testemunho” visto que expõe, em primeira pessoa, as marcas (traumas) deixadas pelo colonialismo português, marcas essas que reverberam até hoje, o que confere ao livro um caráter inacabado. Dessa forma, além de ser um relato memorial, o Caderno serve como espaço de reflexão e denúncia acerca de um período intransponível da história de Portugal. A coincidência entre narradora, autora e personagem legitimam o que é dito ao longo do livro e reforça a dimensão histórica. Esse conjunto de fatores e características aproxima, portanto, Caderno de Memórias Coloniais do sub-gênero “literatura de testemunho”.


Géssica Moreira Ramos – Eugénio de Andrade e o diálogo eterno

“Aqui estão as mãos”: assim começa o poema “Coração habitado” de Eugénio de Andrade, o primeiro do livro Até amanhã. Durante quatro estrofes, são apresentadas as “pequenas mãos do mundo”, que o sujeito lírico deseja fazer visível por via de diferentes tentativas de apreensão. Com essas mãos, os “mais belos sinais da terra”, a voz do poema parece manifestar uma relação íntima, como se tratasse de alguma coisa que, por conhecer bem, mostra ao seu leitor um caminho guiado de aprendizagem: “Alguns pensam que são as mãos de deus / — eu sei que são as mãos de um homem, / trémulas barcaças onde a água, / a tristeza e as quatro estações / penetram, indiferentemente.”. Todo o poema parece um passeio artístico acompanhado de uma tutoria, como o que acontece em museus, imagem que tiramos por conta do tom injuntivo presente na última estrofe: “Não lhes toquem: são amor e bondade.”, pensando que, em matéria de arte, é comum a prescrição “Não toque”, para que possa ser preservado o material em destaque. Essas mãos, que “São o primeiro homem, a primeira mulher.” nos levam a uma tentativa de aproximação com as primeiras manifestações artísticas da humanidade guardadas em sítios arqueológicos, como Lascaux e Chauvet. Em O nascimento da arte, Bataille diz: “Não existe mais perfeita, mais humana invenção do que a existente no testemunho daquelas rochas, por assim dizer no começo da nossa vida” (Bataille, 2015, p. 33). Diante dessa primeira representação artística, esta comunicação deseja trabalhar com o testemunho deixado nessas rochas em diálogo com o poema de Eugénio de Andrade, pensando que “a luz que nos chega de Lascaux é a aurora da espécie humana.” (Bataille, 2015, p. 15) e tal luminosidade — elemento central da poética eugeniana — parece presente em “Coração habitado”. Além disso, também cabe evidenciar que, sendo o primeiro poema de Até amanhã, a temática gira em torno de duas mãos: afinal, a expressão “Até amanhã” exprime o fim de um diálogo com um acordo firmado entre pessoas que marcam de se encontrar novamente. É um aceno dado à distância que deseja uma continuidade. Essa continuidade do aceno parece preservada nas inscrições das grutas arqueológicas, cujas representações de mãos pintadas serviram de material para Bataille, em O nascimento da arte, e Georges Didi-Huberman, em seu texto “Mãos estendidas para o impossível”. Os dois textos serão a base teórica para o desenvolvimento da pesquisa, em que o recurso do endereçamento — já iluminado pelo título do livro de Eugénio de Andrade — será pensado a partir das representações visuais trabalhadas pelos teóricos. Afinal: “Aparece então uma impressão: uma “mão negativa”, dedos bem separados, e que parece desde então acenar a todo visitante desse obscuro fundo de caverna.” (Huberman, 2023, p. 293). A essas mãos estendidas há milhares de anos, Eugénio de Andrade parece responder ao aceno pré-histórico e se tornar mais um elo nessa cadeia de humanos que buscam se comunicar.


Guilherme Corujas Chaves e Viviane Vasconcelos – O olhar em movimento: memória e fragmentação em Na tua face, de Vergílio Ferreira

O presente trabalho tem como objetivo analisar o romance “Na tua face”, um dos últimos livros de Vergílio Ferreira. A obra é condicionada à memória-olhar de Daniel; nada existe nessa narrativa senão dentro do crivo transformador do olhar, que, por sua vez, é um direcionamento dado pelo narrador para que possamos acessar a narrativa. O narrador da obra de Vergílio Ferreira compõe uma emulação do próprio processo de lembrar, quando são criadas memórias ao lado do processo de criação, e também trata de como essa categoria, que se refere ao olhar, é inerente ao fazer artístico, isto é, à forma como recriamos a história de nossas vidas. A memória criada pelo olhar em “Na tua face” pode ser compreendida, consequentemente, como o eixo central de nossas interrogações. É necessário, contudo, que possamos expandir nossa abordagem do que entendemos quanto ao lugar da imagem numa obra de arte, para assim entendermos a densidade do olhar em movimento no romance. Procuramos adotar um corpo teórico que abarca a crítica das filosofias da história da arte, assim encontrando continuidade entre essa obra literária e as artes visuais.


Héllio Fellipe Dalle Piagge – Francília, pastora do tejo: edição anotada da obra de Francisca Possolo da Costa

Este trabalho apresenta os resultados parciais de uma investigação que visa resgatar a escritora Francisca Possolo da Costa (1783-1838) da obscuridade historiográfica. O estudo centra-se na análise da obra poética Francília, pastora do tejo (1816), procurando reintegrá-la criticamente na história da literatura através de uma perspetiva que contemple vozes femininas sistematicamente marginalizadas. O cerne da investigação reside no estudo filológico comparativo entre o manuscrito autógrafo de Francília, datado de 1815, atualmente sob a guarda do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, e a sua primeira edição impressa de 1816. Este cotejo permite observar o processo da autora e identificar possíveis mediações editoriais ou pressões de censura em um período em que a publicação era, para as mulheres, um ato de transgressão. A hipótese central defende que Francisca Possolo da Costa, ao construir um eu lírico feminino através da pastora Francília, subverte as convenções do gênero pastoril, tradicionalmente masculino, realizando um gesto de afirmação autoral de grande modernidade. O trabalho analisa ainda o papel da autora como agente cultural, anfitriã de assembleias literárias em Lisboa, e o subsequente processo de silenciamento historiográfico operado pela crítica do século XIX. O objetivo final é o estabelecimento de subsídios para uma edição anotada da obra, promovendo a reparação histórica da supressão imposta à escritora.


Isabela Coradini Pinheiro – Repensando a arte e a cultura em Os maias, de Eça de Queirós: reflexões iniciais

O presente trabalho tem como intuito principal realizar um breve recorte das referências à cultura artística urbana presentes em Os Maias (1888), do autor Eça de Queirós. Entendemos que as recorrências à arte, à música, ao teatro, à literatura, aos jornais e às diversas outras manifestações culturais são cruciais para entendermos não só o contexto cultural da Lisboa oitocentista, mas também a vida psíquica dos personagens e seus respectivos posicionamentos no interior da obra. Tais elementos muitas vezes funcionam como parte da produção de sentido do enredo e não podem ser considerados como decorativos. Pretendemos demonstrar, então, que esses componentes jamais serão vistos como apenas um pano de fundo para o romance: eles são uma maneira de reforçar o caráter único da narrativa.


Isabela Sabina Rocon da Silva – Caetano Veloso leitor e cantor de Fernando Pessoa

Caetano Veloso nasceu em 7 de agosto de 1942 em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, e “só na adolescência travou contato e apaixonou-se por escritores como Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto e Clarice Lispector” (Andrade, 2023, p. 14). Apesar de não ter concluído o curso, estudou Filosofia na Universidade Federal da Bahia e por meio do amigo Roberto Pinho conheceu a obra e o pensamento do português Agostinho da Silva. Nas palavras do santamarense, “Esse pensador heterodoxo disseminou uma forma de sebastianismo erudito de inspiração pessoana, e com isso atraiu algumas pessoas que me pareciam atraentes. Não foi sem pensar nelas que incluí a declamação do poema de Fernando Pessoa no happening da apresentação do ‘É proibido proibir’” (Veloso, 1997, p. 209). O contato inicial de Caetano com Pessoa foi através dos “poemas que as meninas citavam, que muita gente lia em voz alta para mim, cujos trechos eram repetidos de cor e que uma ou outra vez eu mesmo lia no exemplar de algum colega de faculdade” (Veloso, 1997, p. 237). Ao explorar mais a fundo o livro Mensagem, Caetano afirmou que se “sentia em presença de algo mais profundo quanto a tratar com as palavras, por causa de cada sílaba, cada som, cada sugestão de ideia parecer estar ali como uma necessidade da existência mesma da língua portuguesa: como se aqueles poemas fossem fundadores da língua ou sua justificação final” (Veloso, 1997, p. 237). Como consequência desse contato, começou “a ver “Tropicália” – e a pensar o tropicalismo – também à luz da minha versão do sebastianismo” (Veloso, 1997, p. 237). Por meio do movimento antropofágico da Tropicália, Caetano devora o que é de fora e o transforma em brasileiro. Se para Agostinho, enquanto “a cultura do Brasil vive ou com saudades da Europa ou tendo por meta a realização americana” (Silva, 2009, p. 17), a fim de ressignificar a dominação imperialista ideológica em um país que continua subjugado, por sua vez, o baiano apropria símbolos constituindo a originalidade através da rasura. Tendo, assim, a consciência de que a originalidade é um mito, as rasuras engenhadas sobre as formas estrangeiras são a própria qualidade constituinte da cultura brasileira. Caetano Veloso carrega consigo sua bagagem histórica de relevância na Música Popular Brasileira. Sua presença contribui para a criação imagética do Brasil enquanto porto de vários e diversos significantes. O porto é elemento de grande recorrência em suas obras e tema central que ambienta o poema “D. João Infante de Portugal”, vertido em canção no álbum Mensagem (Poemas de Fernando Pessoa e Músicas de André Luiz Oliveira), na qual Caetano se torna uma espécie de terceiro coautor. O porto é de suma importância para o cancioneiro nacional, seja por seu caráter de confluência, apropriação, seja por aquilo que distribui como resposta, expropriação, ao passo que “a sensação de ser e estar à deriva, sem porto alegre nem seguro, acompanha muitos sujeitos cancionais criados por Caetano” (Morais Junior, 2004, p. 80). Nosso trabalho, portanto, visa analisar a performance de Caetano em “D. João, Infante de Portugal”, a fim de singularizar significados ao texto pelo uso intencional das pausas, cortes rítmicos e inflexões da voz. Observamos que ao modificar a cesura métrica dos versos, na mistura entre o som e o silêncio, assim como o autor o faz por meio do uso da vírgula na mancha gráfica, a vocoperformance de Caetano rasura e realiza pausas de igual compasso. O intérprete materializa a fala do eu-lírico, imersa em um cruzamento entre figurativização e passionalização, alongando ou encurtando as vogais, utilizando de curva decrescente, a fim de projetar a conclusão de sentido do canto orfeônico e, ao mesmo tempo, messiânico.


José Ricardo Oriá Fernandes – Patrimônios Contestados no Brasil e em Portugal: o caso do Monumento a Pedro Álvares Cabral e do Padrão dos Descobrimentos

Nos últimos anos temos presenciado, em vários países, contestação em torno de alguns patrimônios históricos consagrados ligados ao passado colonial, que foi marcado pelo genocídio de populações nativas, escravização de etnias e imposição de uma colonização predatória. O ponto alto dessas manifestações de contestação e iconoclastia se deu em plena pandemia da Covid-19, em junho de 2020, quando a estátua do Sir Edward Colston, parlamentar inglês que fez sua fortuna à custa do tráfico negreiro, foi retirada da praça pública onde se encontrava e jogada no rio Arnon, na cidade de Bristol, Inglaterra. A derrubada dessa estátua insere-se no contexto da luta antirracista, levada a cabo pelo movimento “Vidas Negras Importam” dos Estados Unidos, que reverberou em diversas partes do mundo. Em Portugal, ocorreu a pichação à estátua de Padre Antônio Vieira, de 2017, monumento contestado por evocar à memória de um personagem ligado ao processo de colonização e membro da Igreja Católica, que fora conivente com a escravização dos povos africanos, levados forçosamente à América. No Brasil, entre os anos de 2020 e 2021, a iconoclastia de monumentos se deu em relação a dois grupos escultóricos, ambos localizados na cidade de São Paulo, a saber: o Monumento às Bandeiras (1953) e a Estátua de Borba Gato (1962). Os bandeirantes, enaltecidos pela historiografia oficial como heróis nacionais devido ao processo de interiorização do território brasileiro, foram, na verdade, responsáveis também pelo genocídio de comunidades indígenas e extermínio de quilombos. Tanto no Brasil como em Portugal essa contestação tem se manifestado através de atos de iconoclastia, remoção de monumentos, realização de performances por grupos coletivos e até mesmo com a apresentação de proposições legislativas, que objetivam retirar tais monumentos dos espaços públicos. No contexto desta comunicação, iremos dar ênfase a dois monumentos históricos construídos em épocas e contextos históricos diferentes, mas que rememoram o mesmo passado colonial. No Brasil, o Monumento a Pedro Álvares Cabral, inaugurado como parte das comemorações do IV Centenário do Descobrimento do Brasil (1900), foi objeto de uma ação iconoclasta, em 2021, promovida pelo grupo indígena Uruçu Mirim, que ateou fogo na base do Monumento em protesto à proposta de mudança legislativa, o chamado “marco temporal”, que prejudicava o processo de demarcação das terras indígenas em território brasileiro, ao reconhecer a propriedade da terra aos povos que já a ocupavam até a data da promulgação da Constituição Federal de 1988. Já em Lisboa, além de pichações no Padrão dos Descobrimentos ocorridas nesse período, o deputado socialista Ascenso Simões propôs, a exemplo do que houve com a mudança do nome de “Ponte Salazar” para “Ponte 25 de abril”, a demolição do referido Monumento, por fazer parte de um passado sensível da história portuguesa, uma vez que ele foi construído em plena ditadura de Salazar, no ano de 1960, como parte das celebrações dos 400 anos da morte do Infante Dom Henrique. A proposta parlamentar não logrou êxito, mas suscitou, tanto no Brasil como em Portugal, a necessidade de se discutir a memória da colonização portuguesa, seja na antiga metrópole, seja no espaço de sua ex-colônia na América. Para o 12º Colóquio do Polo de Pesquisas Luso-brasileiras (PPLB), cujo tema central é “Livros, bibliotecas e lugares de memória luso-brasileiros”, estamos propondo analisar esses dois monumentos históricos icônicos, bem como o processo de descolonização do patrimônio cultural em ambos os países, uma vez que a herança da colonização portuguesa deixou marcas indeléveis na sociedade contemporânea, sob a forma do racismo estrutural e da exclusão social.


Júlia Garcia Santos – Mistérios de Fafe: cidade e nação como microcosmo literário no acervo do Real Gabinete Português de Leitura

O acervo do Real Gabinete Português de Leitura, sediado no Rio de Janeiro, abriga a maior camiliana existente fora de Portugal. Contudo uma parcela significativa das narrativas produzidas por Camilo Castelo Branco permanece quase desconhecida pelo público leitor comum e ainda pouco abordada pela crítica especializada e pelos estudos acadêmicos. O presente trabalho busca analisar a obra Mistérios de Fafe (1868) como representação literária de um microcosmo da sociedade portuguesa oitocentista, marcada pelo conservadorismo, pela lentidão de transformações sociais e pela ausência de modernização secular. A narrativa camiliana explora uma cidade provinciana que funciona como ‘‘teatro moral’’, revelando tensões profundas entre tradição, religiosidade e práticas sociais reguladas pelo olhar público. A partir da concepção de nação como comunidade imaginada, de Benedict Anderson (2008), a cidade de Fafe é entendida como uma projeção ficcional do imaginário português unido por hábitos e valores herdados. Em diálogo com Eduardo Lourenço (1992), o romance é lido como sintoma do ‘‘complexo de atraso’’ e da consciência crítica da identidade portuguesa. A análise da obra também se apoia em Jacinto do Prado Coelho (2021), que identifica na ironia camiliana um instrumento de crítica social, e em Dominique Kalifa (2017), para pensar o crime, o rumor e o sensacionalismo como mecanismos que compõem e constroem o imaginário urbano e a ordem social da sociedade fafense. A trama do adultério presente na obra evidencia esse imaginário comunitário onde o caso é conhecido por todos, mas mantido sob um silêncio cúmplice, até ser convertido em escândalo moral coletivo. Na obra, Fafe torna-se palco de uma ‘‘camaradagem horizontal’’, proposta por Anderson, em que honra e reputação funcionam como dispositivos de coesão e vigilância, regulando o comportamento do povo e produzindo uma identidade similar. Assim, o estudo explora como Mistérios de Fafe opera como crítica à estagnação portuguesa, representando uma cidade e uma comunidade incapaz de romper com o tradicionalismo.


Juliana de Souza Fernandes – Da sala de aula à rádio: comentários sobre a atuação de Cleonice Berardinelli na rádio MEC

A pesquisa vigente, desenvolvida  junto ao Polo de Pesquisas Luso-Brasileiras do Real Gabinete Português de Leitura, tem como objeto de investigação o programa “Literatura Portuguesa Hoje”, material radiofônico produzido pela Rádio MEC na década de 1980, com apresentação de Cleonice Berardinelli Importante registro audiofônico da atuação de Cleonice Berardinelli como comunicadora, o acervo representa também uma marca histórica de difusão da literatura portuguesa no Brasil. Este trabalho, para além da recuperação arquivística e transcrição dos programas, propõe uma análise da ocupação do espaço radiofónico pela intelectual. A análise articula os conceitos de “voz pública” e “mímesis” para demonstrar como Berardinelli, embora não reivindicasse militância política, subverteu a exclusão feminina do discurso de autoridade. Justifica-se que, ao ocupar a rádio pública para ler e comentar o cânone, a autora operou uma política de presença, transformando a erudição literária em ferramenta de emancipação e afirmação da voz feminina no rádio, à altura, um poderoso veículo de comunicação em massa.


Julieny Souza do Nascimento – Entre Luanda e Lisboa: cidades em ruínas e sujeitos em trânsito

Luanda, Lisboa, Paraíso (2018), de Djaimilia Pereira de Almeida, escritora portuguesa de origem angolana, narra as complexas relações que moldam a vida de sujeitos em trânsito entre duas cidades: Luanda (Angola) e Lisboa (Portugal). A trajetória de Cartola e Aquiles, pai e filho, revela as tensões do pós-colonialismo, evidenciando questões como assimilação, exclusão e invisibilidade enfrentadas pelos imigrantes em Lisboa. O deslocamento mostra como o espaço urbano se configura como um palco de fraturas e memórias herdadas do colonialismo. Utilizando a contribuição interdisciplinar de vozes como Bhabha (1998), Lefebvre (2001), Said (2007) e Spivak (2010), o presente trabalho propõe uma leitura da cidade como espaço material e simbólico, no qual se entrelaçam experiências e vivências pós-coloniais.


Júlio César de Araújo Cadó – Notas sobre uma biblioteca portuguesa na poesia de Eucanaã Ferraz

Esta comunicação tenciona apresentar o percurso inicial de uma investigação acerca das relações luso-brasileiras estabelecidas no cenário da poesia brasileira contemporânea. Com especial atenção, ela se detém na presença de marcas da literatura portuguesa na produção do poeta, professor e ensaísta carioca Eucanaã Ferraz (1961). Para os leitores brasileiros, o vínculo de Ferraz com o país europeu é indiciado pelo trabalho como antologista, quer de volumes inteiramente dedicados a autores portugueses (como Sophia de Mello Breyner Andresen e Eugénio de Andrade), quer de volumes sem a restrição nacional como parâmetro de seleção dos textos (a exemplo do livro A lua no cinema e outros poemas), além da publicação de ensaios dedicados a poetas do outro lado do Atlântico. Do lado português, é de se sublinhar a existência de edições portuguesas da obra poética de Ferraz, inclusive da única edição de sua poesia completa, Poesia (1990-2016), de 2016, pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda. O diálogo entre Ferraz e a cultura lusitana já fora apontado por Carlos Mendes de Sousa no ensaio “Pássaros deslumbrados se desatam: os poemas portugueses de Eucanaã Ferraz” (2020). Desse modo, a pesquisa em curso pretende avançar na interpretação dos laços identificados a partir da noção de “transferências culturais”, conforme estudo de Michel Espagne (2017). Inicialmente formulada pelo autor em parceria com Michael Werner, a ideia de “transferência cultural” compreende os processos de apropriação e circulação de um contexto para o outro; sob essa perspectiva, entende-se que esse deslocamento se faz acompanhar de transformações e de ressemantizações. No panorama mais amplo, as relações luso-brasileiras no campo da literatura são marcadas por oscilações históricas, delineadas, por vezes, de maneira dinâmica, no intervalo entre a negação e a adesão. Ao adentrar o cenário contemporâneo, no entanto, os vínculos parecem fugir dos pontos extremos, abrindo outras possibilidades nessa paisagem relacional. É de se perguntar, portanto, os modos como a poesia brasileira vem empreendendo diálogos com a poesia portuguesa. Em vista da impossibilidade de delimitar uma poética contemporânea, seleciona-se como corpus a dicção singular de um poeta, Eucanaã Ferraz. Devido à frequência com o que o autor se vale de diálogos com autores portugueses – frequência esta que se materializa em dedicatórias, citações, remissões e outros procedimentos da ordem da intertextualidade, seguindo o entendimento de Tiphaine Samoyault (2005) –, neste estudo, o esforço de leitura se volta para poemas que, a seu modo, dramatizam a presença de autores portugueses, por vezes inseridos em cenas que envolvem a escrita e o processo de criação. Nomeadamente, a título amostral, as figuras de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) e Luiza Neto Jorge (1939-1989) são esquadrinhadas nos poemas de Ferraz postos em análise, trazendo, em comum, a presença do também poeta Gastão Cruz (1941-2022). Além dos referenciais teóricos anteriormente citados, traçam-se diálogos com a fortuna crítica da obra de Eucanaã Ferraz, como Viviana Bosi (2017) e Marlene de Castro Correia (2018).


Karulliny Silverol Siqueira – Entre livrarias, tipografias e memória: Basílio de Carvalho Daemon e a mediação da herança documental portuguesa no Espírito Santo oitocentista

O presente trabalho propõe uma análise da trajetória intelectual de Basílio de Carvalho Daemon (1834-1893) a partir de sua atuação como livreiro, editor, jornalista e compilador de documentos históricos, compreendendo-o como uma figura-chave na mediação da cultura escrita e da memória histórica no Espírito Santo ao longo do século XIX. Longe de ser apenas o autor da obra “Província do Espírito Santo – sua descoberta, história cronológica, sinópsis e estatística”, publicada em 1879, Daemon é aqui interpretado como um agente múltiplo do circuito do impresso, cuja prática cotidiana no mercado livreiro, na imprensa e no manejo de documentos, sobretudo, provenientes do período colonial, condicionou profundamente sua forma de escrever a história provincial. Inserido em um contexto marcado pela precariedade das tipografias provinciais, pela circulação restrita de livros e pela dependência dos grandes centros editoriais do Império, especialmente o Rio de Janeiro, Daemon construiu sua atuação intelectual na interseção entre comércio de livros, produção jornalística e organização documental. Como livreiro e editor, participou ativamente da difusão de impressos, contribuindo para a formação de um público leitor local e para a consolidação de uma cultura letrada ainda incipiente no Espírito Santo. Como jornalista, integrou redes de sociabilidade intelectual e política, utilizando o jornal como espaço de intervenção pública e de circulação de ideias. Como compilador, dedicou-se à coleta, transcrição e ordenação de documentos históricos, atividade que culminaria na publicação de sua obra mais conhecida. Seu livro sobre a história da província do Espírito Santo, impressa em sua própria tipografia, a Tipografia d’O Espírito Santense, longe de ser compreendida apenas como uma narrativa erudita sobre o passado provincial, é analisada neste trabalho como um estudo de caso exemplar das práticas de compilação documental no Brasil oitocentista. A obra se estrutura a partir de um amplo conjunto de fontes coloniais de origem portuguesa, tais como cartas régias, provisões, ordens administrativas, correspondência de autoridades e relatos históricos produzidos no âmbito da administração do Império português. Trata-se, portanto, de documentação lusa em sua gênese, ainda que acessada por Daemon por meio de arquivos, instituições e coleções preservadas no Brasil e da rede de intelectuais da qual fazia parte. Nesse sentido, o trabalho enfatiza que Daemon não atua como mediador da herança documental portuguesa no Brasil. Sua pesquisa se apoia, sobretudo, em seu diálogo profícuo com os colegas e intelectuais do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), espaço central de organização da memória imperial e de legitimação do saber histórico no século XIX, que resguarda atualmente o acervo de documentos transcritos por Daemon. Ao mobilizar esses documentos, Daemon reinscreve a experiência colonial portuguesa em uma narrativa provincial, articulando passado luso e presente imperial brasileiro. A análise da obra permite observar como Daemon opera simultaneamente como editor implícito dos documentos que utiliza, selecionando, recortando e hierarquizando fontes segundo critérios que dialogam com as práticas historiográficas de seu tempo. Sua escrita revela uma preocupação constante com a autenticidade documental, com a transcrição de fontes, elementos que aproximam sua atuação das dinâmicas mais amplas de construção da história nacional no Oitocentos. Ao mesmo tempo, sua condição de livreiro e jornalista confere à obra um caráter híbrido, situado entre a erudição histórica e a divulgação letrada. Ao privilegiar Daemon como figura central, o trabalho dialoga com debates contemporâneos sobre espólios, acervos e arquivos históricos luso-brasileiros, bem como sobre o papel dos mediadores culturais na circulação de textos, documentos e ideias. A trajetória de Daemon evidencia como a memória do Império português foi reorganizada, reinterpretada e apropriada por intelectuais provinciais no Brasil do século XIX, revelando os vínculos persistentes entre Portugal e Brasil no plano da cultura escrita. Assim, mais do que analisar uma obra específica, esta comunicação propõe compreender Basílio de Carvalho Daemon como um nó articulador entre diferentes áreas da cultura escrita, cuja atuação ilumina os processos de formação de acervos históricos, de circulação documental e de escrita da história em escala provincial. A obra historiográfica de Daemon emerge, nesse percurso, não como ponto de partida, mas como resultado de uma prática intelectual profundamente enraizada nas materialidades do impresso e na tradição documental portuguesa.


Leonardo Soares Madeira Iorio Ribeiro – Mariana Coelho e seu agir-no-mundo: o livro como estratégia de luta

O objeto desta comunicação é abordar a utilização da publicação, especialmente o livro, como estratégia de luta e de difusão de ideias − de “propaganda feminista” −, pela  educadora luso-brasileira Mariana Coelho (Marianna Candida Teixeira Coelho, 1857-1954), que, desde os fins do século XIX, escreveu sobre o feminismo, entre outros temas (RIBEIRO, 2015). Mariana Coelho percebeu, ainda em Portugal, desde jovem, a importância do reverberar das publicações (periódicos, livros etc), considerando, por exemplo, suas relações com os seus primos Padre Ribeiro Coelho e Albano Coelho, que foram redatores e proprietários de um jornal em Braga, Portugal (“O Commércio do Minho), bem como o convívio com a atuação de seu irmão, Carlos Alberto Teixeira Coelho. Embora, após imigrar para o Brasil, Mariana Coelho tenha fixado residência em Curitiba, sempre manteve os pés firmes no Rio de Janeiro, não apenas cultivando relações, mas também publicando e divulgando seus livros nesta cidade que, à época, era a Capital Federal, valendo-se do fato de seu irmão, Thomaz Coelho, residir no Rio de Janeiro. A primeira obra de Mariana que lhe deu notoriedade, “O Paraná Mental” (1908), foi divulgada na Exposição Nacional de 1908, realizada no Rio de Janeiro, com seu proêmio redigido por Rocha Pombo. O livro recebeu Medalha de Prata na Exposição. Rocha Pombo escreveu: “ao ler artigos de crítica ou de crônica, ou versos, subscritos por um nome de mulher, pode imaginar-se de que curiosidade se incendiou o espírito de quantos liam” (COELHO, 2002). Embora o tema do livro fosse outro, Mariana não deixou de tratar da questão da emancipação feminina, da igualdade de gênero, de trabalho e de educação feminina: “que a mulher trabalhe e estude…” – defende Mariana  (COELHO, 2002). É interessante como a escritora se valia dos meios que lhe eram disponíveis, para difundir as ideias feministas. Assim é que foi titular, num jornal curitibano (“Diário da Tarde”), de uma coluna intitulada “Crônica da Moda”, usando este veículo para defender, por exemplo, que as mulheres deviam ter direito ao voto, logo que convenientemente preparadas intelectualmente: “uma educação completa primeiro, e depois… o resto virá fatalmente, quer os obstinados oposicionistas queiram, quer não” (RIBEIRO, 2015). No Rio de Janeiro, Mariana publicou, em 1933, seu mais importante livro, “A Evolução do Feminismo”, sustentando uma linha de pensamento, no sentido de vislumbrar como pilares da emancipação da mulher, a educação e o trabalho: “reafirmaremos sempre, com inteira convicção, que a verdadeira e principal emancipação feminina é a do trabalho. A mulher educada no preparo de qualquer rendosa profissão…” (COELHO, 1933). A educadora-feminista, embora tenha sofrido as influências de seu tempo, percebeu que o “sexo frágil” não nascia frágil, mas era assim construído pela sociedade (COELHO, 1933), sendo chamada de “Beauvoir Tupiniquim” por Zahidé Muzart (2002). Numa perspectiva epistemológica, Mariana Coelho é, assim, nosso “indivíduo-eixo”, pela lente de Norbert Elias (2001), para reflexão de seu contexto social e cultural: “indivíduo” e “sociedade” são conceitos que designam um processo, sendo indissociáveis e configurando uma ilusão de ótica enfrentá-los como dois objetos separados. Ao homem singular se abrem possibilidades de agir ou não agir, conforme o modelo sociológico de seu tempo e sua posição social, numa dinâmica e num entrelaçamento de interdependências: não é possível entender – tomemos este exemplo – o rei sem entender a posição social do rei. Mariana legou as seguintes publicações, além de inúmeras colaborações e atuações em periódicos, no Brasil e em Portugal: a) “Discurso” (1902), realizado na sessão magna de regularização da Loja Maçônica feminina “Filhas de Acácia”; b) “O Paraná Mental” (1908), reimpresso pela Imprensa Oficial do Paraná, em 2002;  c) “A Evolução do Feminismo: subsídios para a sua história” (1933): reimpresso pela Imprensa Oficial do Paraná, em 2002; d) “Um brado de revolta contra a morte violenta” (1935); e) “Linguagem” (1937); f) “Cambiantes: contos e fantasias” (1940); e g) “Palestras Educativas” (obra póstuma), 1956. Eis como podemos partir de Mariana Coelho para debater perspectivas de seu contexto histórico e social, abordando as relações, em reenvios, de suas estratégias de luta e de difusão de suas ideias, inclusive feministas.


Lohaine Miguez Martins – Aproximações entre Gilka Machado João do Rio: uma análise motivada pelo acervo do Real Gabinete

A poeta Gilka Machado foi uma grande e prestigiada autora do entresséculos XIX-XX. Com sua ousadia temática e poemas bem elaborados, chocou um público que a reverenciou como grande escritora e outro que a criticou ferrenhamente, esse último, como sabemos, a crítica literária masculina. Apesar de se consagrar em vida como mulher das letras, ao longo dos anos foi sendo apagada da história da literatura, quase esquecida pelos historiadores que, muitas vezes, só a davam uma nota de rodapé ou uma singela citação de seu nome (Martins, 2012). Em contraponto ao lugar que a crítica e a história da literatura segregou para Gilka, a academia passou a se empenhar em estudar sua obra; dessa forma é que seu nome começou a circular novamente. Seguindo o caminho de pesquisar a obra de Gilka Machado, buscamos todas as suas primeiras edições contidas no Real Gabinete. Com as obras em mão, deparamo-nos com dois exemplares de livros da escritora que pertencem ao espólio de outro autor muito conhecido no início do século XX: Paulo Barreto, o João do Rio. Ambas edições continham dedicatórias de Gilka para Paulo Barreto. A Relação dos Perfumes ofereceu a João do Rio, enaltecendo-o como “notável prosador” e Crystaes Partidos dedicou “A Paulo Barreto – o genial prosador do Dentro da Noite”. Logo, mediante a esse intertexto, em que Crystaes Partidos nos remete para Dentro da Noite, dispomo-nos a analisar os diálogos presentes entre ambas obras, iniciando pelo recorte temático: sobre isso, vale informarmos que “Dentro da noite” dá nome não só ao livro de contos de João do Rio como a um poema de Gilka Machado, presente em Crystaes Partidos.. Inicialmente, buscamos investigar as relações entre os dois textos (o conto “Dentro da Noite”, que abre a coletânea Dentro da noite, de João do Rio e “Dentro da noite”, poema de Gilka Machado presente no livro de poemas Crystaes partidos. Caminhando nessas investigações, chegamos a alguns resultados parciais, que mencionaremos a seguir: sobre as biografias dos escritores estudados, podemos elencar diversos pontos de congruência, a começar pelo fato de que ambos iniciam cedo na carreira de escritores. Enquanto Gilka estreia aos 13 anos em concurso de poesia, João, por volta de seus 17 anos, já começa a publicar. O peso da questão racial também pode ser percebida tanto em Gilka quanto em João do Rio; no exemplo de como Afrânio Peixoto descreve a poeta, podemos notar como sua cor influenciava negativamente na percepção sobre ela. Paixão (1990, p. 57) relembra que Afrânio descreveu Gilka como “mulatinha escura”, que estava em uma “escadinha suja e escura”. Já no caso de João do Rio, podemos trazer à discussão a ocasião em que o Barão do Rio Branco destruiu o sonho de João de se ingressar como diplomata no Palácio do Itamaraty, uma vez que ele era um homem, nas palavras do próprio Barão, “gordo, amulatado e homossexual”. A corporeidade e a sexualidade são pontos nevrálgicos na vida e obra dos escritores. Gilka trabalha, constantemente, em seus poemas, o elemento corpóreo, evidenciando o corpo da mulher como não mais restrito ao privado o que também desagua na importante na questão do desejo e do erótico, importantes temáticas da obra gilkiana. Desse modo, se Gilka traz o corpo feminino simbólico para o espaço público da literatura, em contrapartida, temos João do Rio como uma figura que impõe o seu corpo físico dissidente nos espaços sociais. O Rio de Janeiro também pode ser visto como um ponto de conexão entre Gilka e João. Se Gilka aderiu a um moderno carioca, não se influenciando pela corrente modernista paulistana, João, por sua vez, se inspirava no Rio de Janeiro como elemento criativo. Nesse sentido é que, tendo o Rio enquanto cidade em transformação, João previa uma antiga cidade que estava dando lugar a uma nova. E nessa perspectiva da transformação, Gilka também estava inserida, pois igualmente previa uma modificação: a feminina. A produção de Gilka serve como uma ponte entre o modelo antigo de ser mulher (restrito ao universo privado e cercado tabus) para uma nova forma de feminilidade, agora, mais moderna e liberta. Além disso, as obras mencionadas também possuem diversos pontos de diálogo, como o fato de ambas tratarem de um desejo proibido (o da Gilka por ser manifesto por uma mulher e o do João por ser um prazer sádico); enquanto Gilka demonstra um prazer salutar, João, um prazer doentio; ambos trazem o noivado como momento de transição; têm a noite como cenário para seus textos. Para além dessas breves percepções, temos nos debruçado sobre os pontos de aproximações entre os dois textos, para, posteriormente, ampliarmos nossa investigação.


Lorrani Kassi Fontella Athanazio – O que muda quando se corta: linguagem, edição e memória literária em Alcateia 1944 e 1945

Este resumo tem como objetivo apresentar a análise em andamento do romance Alcateia, de Carlos de Oliveira, a partir de um estudo comparativo entre a edição original de 1944, censurada pela ditadura salazarista e preservada no acervo bibliográfico do Real Gabinete Português de Leitura, e a versão relançada após a reescrita em 1945. Essas duas edições são centrais não apenas para compreender a construção literária do romance, mas também para situá-lo dentro do contexto político do Estado Novo (1933–1974), que impôs cortes e modificações do texto. A edição de 1944, nesse sentido, adquire especial relevância por funcionar como um objeto material de repressão, cuja preservação permite acessar uma forma do romance diretamente atingida pela censura. A edição de 1945, reescrita sob esse contexto de pressão, funciona também como um documento histórico e literário, pois evidencia como a censura interferiu de modo concreto na maneira como a violência, a miséria e a vida social da aldeia de Corgos são representadas em Alcateia. As alterações não dizem respeito apenas a trechos isolados, mas afetam o tom do texto, certas escolhas de linguagem e o modo como o conflito social é apresentado. Assim, analisar Alcateia implica observar como a literatura circulou e se reorganizou dentro de um regime autoritário, que delimitava o que podia ou não ser dito, e como essas delimitações se inscrevem no próprio texto literário. Propõe-se, então, uma leitura comparativa de Alcateia a partir das diferenças entre as edições de 1944 e 1945, formulando de maneira direta a pergunta sobre o que muda quando o livro é reescrito e quando determinados trechos são cortados. O objetivo é compreender como essas intervenções afetam o romance tanto no nível da linguagem quanto na imagem de mundo que o texto constrói. Parte-se da ideia de que a política do romance não está apenas no tema, mas também no modo de narrar, nas escolhas formais e na forma como a violência social é distribuída ao longo da narrativa. Nesse sentido, as duas únicas edições desse livro em vida do autor, são tratadas como camadas históricas do próprio texto, capazes de revelar, ao mesmo tempo, um projeto literário e as pressões que o cercam. A preservação da edição de 1944 no acervo do Real Gabinete torna possível esse tipo de leitura comparativa e reforça a importância do estudo e da conservação dessas edições, não apenas como textos, mas como objetos que carregam marcas da censura e da repressão política. Como resultado esperado, a pesquisa pretende demonstrar que as diferenças entre 1944 e 1945 não se reduzem a variações editoriais, mas reconfiguram o modo como Alcateia enuncia a política e constrói literariamente um mundo social marcado pela pobreza e pela violência. Ao discutir essas versões, o trabalho também toca no problema do apagamento e do retorno: o que desaparece numa reescrita, o que reaparece em edições posteriores e como isso altera a forma de ler o romance hoje. Assim, busca-se mostrar, com comparações objetivas e exemplos pontuais, o impacto real de “cortar” sobre a linguagem, a política e a memória literária da obra.


Maíra Aparecida Reis Costa – Entre Minas Gerais e Portugal: a presença lusitana no Suplemento Literário do Minas Gerais

Em meados da década de 1960, o Suplemento Literário do Minas Gerais foi criado com o intuito de divulgar a crítica e ampliar a circulação literária de autores(as) brasileiros(as) e estrangeiros(as). Com publicação semanal, o periódico destacou-se no cenário das letras mineiras ao representar um espaço informativo e editorial que contribuiu para a livre circulação de ideias durante a ditadura militar brasileira (1964–1985). Seu vasto corpus abrange poemas, contos, crítica literária, ilustrações, artigos esparsos e entrevistas, diversidade que possibilitou o intercâmbio literário entre escritores(as) brasileiros(as) e portugueses(as). Por meio da interlocução entre Murilo Rubião, idealizador e colaborador do suplemento, Laís Corrêa de Araújo, colaboradora, tradutora e editora assídua, e escritores(as) portugueses como Ernesto de Melo e Castro e Ana Hatherly, que vieram ao Brasil no final da década de 1960, foram publicados, em março de 1969, dois números especiais dedicados à literatura portuguesa, intitulados “Portugal: a Literatura Nova” (I) e (II). A participação dos portugueses, a partir de então, tornou-se frequente nas páginas do SLMG. Mais tarde, em meados da década de 1970, a seção “Lusitana Gente” passou a destacar e divulgar matérias relacionadas à literatura portuguesa. A pesquisa que temos em andamento visa explorar de modo mais aprofundado o profícuo diálogo luso-brasileiro presente nas páginas do SLMG. O objetivo central deste estudo é investigar a presença, a atuação e a contribuição de mulheres escritoras, críticas, tradutoras e artistas no Suplemento Literário do Minas Gerais, entre 1966 e 1976, discutindo, a partir dos textos publicados – e de correspondências, documentos e manuscritos -, de que modo suas produções literárias e críticas se articulam às redes intelectuais brasileiras e portuguesas e quais linhas temáticas essas escritas mobilizam, considerando os contextos autoritários da ditadura militar brasileira e do Estado Novo português. Ancorada nas pesquisas de Teixeira (2014) e Tolentino (2006; 2016), de Luca (2008), Cury (1995), Canelo (2009), Duarte (2016; 2017), Serpa (2004) e outros(as), a investigação busca compreender como os textos presentes no periódico mineiro, sob a vigência de regimes autoritários (ditadura militar no Brasil e Estado Novo em Portugal), possibilitaram a divulgação e manifestação literária de escritoras(as) brasileiras(as) e portuguesas(as). Espera-se, a partir desse exame, ampliar as discussões acerca dos diálogos luso-brasileiros e da participação das mulheres na imprensa literária brasileira e nas redes intelectuais lusófonas do século XX.


Marcela Ansaloni de Azevedo – O cotidiano crítico de Maria Judite de Carvalho: a crônica no Estado Novo

Esta comunicação analisa a crítica social presente nas crônicas de Maria Judite de Carvalho reunidas em A Janela Fingida (1975), originalmente publicadas na imprensa portuguesa, sobretudo no Diário de Lisboa, entre 1968 e 1969, durante os anos finais do Estado Novo. O trabalho constitui um recorte de pesquisa de doutorado em andamento e parte da compreensão da imprensa periódica como um acervo histórico-literário fundamental, não apenas como suporte efêmero, mas como espaço de circulação, mediação cultural e preservação de discursos críticos em contexto autoritário. Embora Maria Judite de Carvalho não figure entre as escritoras associadas à militância literária de sua geração, sua obra revela uma reflexão profunda sobre as desigualdades sociais, a condição feminina, o analfabetismo, o racismo estrutural e a precariedade econômica em Portugal. A autora nos apresenta uma escrita que funciona como estratégia de resistência frente à censura e aos valores patriarcais do regime salazarista. A análise concentra-se em crônicas nas quais situações banais do cotidiano urbano funcionam como dispositivos narrativos capazes de expor contrastes sociais marcantes e tensões silenciadas pela ordem vigente. Nesse sentido, o trabalho dialoga com Walter Benjamin (1987), que, ao refletir sobre o declínio da arte de narrar, aponta a perda da capacidade de troca de experiências como uma das consequências dos horrores históricos vivenciados, frequentemente impossíveis de serem plenamente comunicados. Em contraposição a esse empobrecimento da experiência na modernidade, a escrita de Maria Judite de Carvalho destaca-se por reinscrever no campo da narração aquilo que tende a permanecer como mera informação nos livros de História. Sua crônica não se limita ao registro factual, mas recupera afetos, sentimentos e emoções associados ao período da ditadura, transformando o trauma coletivo em experiência narrável. Ao narrar o cotidiano, Maria Judite de Carvalho devolve humanidade a um tempo marcado pelo silenciamento e pelo medo. Cada cena aparentemente trivial — um encontro casual, uma conversa interrompida, um gesto mínimo — materializa o horror difuso do período, tornando-o sensível ao leitor por meio das emoções e das relações humanas. É justamente essa dimensão afetiva da narrativa que confere densidade política à sua escrita, permitindo que o passado autoritário se atualize criticamente a cada nova leitura. Ao recuperar essas crônicas a partir de seu contexto de produção e circulação, este trabalho reafirma a relevância da imprensa como acervo literário e histórico para o estudo da literatura portuguesa do século XX, especialmente no que diz respeito às vozes femininas. Conclui-se que a linguagem aparentemente discreta de Maria Judite de Carvalho constitui uma forma engenhosa de resistência, na qual a crítica social se constrói pela contenção, pela ironia e pela confiança no trabalho interpretativo do leitor.


Marcelo Henrique Oliveira Sousa – Iracema: o gênero performático de Carlos Malheiro Dias

Esta pesquisa insere-se no estudo da coleção Malheiro Dias, parte do acervo do Real Gabinete Português de Leitura, e tem como objetivo analisar o gênero performático presente na produção literária de Carlos Malheiro Dias. O corpus principal é constituído pelas colunas reunidas sob o título Cartas de mulher, originalmente publicadas na Revista da Semana e posteriormente compiladas em antologia. A investigação parte da constatação de que, ao longo da tradição literária portuguesa, observa-se um recorrente falseamento da voz feminina, já presente nas cantigas de amigo da lírica galego-portuguesa, em que trovadores homens encenavam um eu-lírico feminino. Essa prática de fingimento reaparece em Malheiro Dias, que cria a personagem Iracema como uma espécie de proto-heterônimo, destinada a dialogar com o público feminino da revista. A partir de cartas do público dispostas no acerto, pode-se ver que a recepção da época foi marcada pela crença na autenticidade dessa voz, revelando o poder de convencimento da performance literária. O estudo articula esse fenômeno com a teoria da performatividade de gênero de Judith Butler, que compreende o gênero não como essência fixa, mas como construção social e histórica produzida pela repetição de atos estilizados. Nesse sentido, tanto as cantigas medievais quanto as colunas de Iracema exemplificam como o gênero pode ser entendido como performance, criando a ilusão de uma identidade feminina “original” que, na verdade, é resultado de práticas discursivas e normativas. Assim, a pesquisa na coleção Malheiro Dias evidencia como a literatura pode funcionar como espaço de encenação e experimentação de identidades, antecipando debates contemporâneos sobre representação, gênero e autoria. O acervo do Real Gabinete Português de Leitura torna-se, portanto, fundamental para compreender não apenas a obra de Malheiro Dias, mas também os modos como a tradição literária portuguesa elaborou e reproduziu performances de gênero ao longo do tempo.


Maria Isabela Correa de Sá Castro Mota – A noite inflama o texto: memória e esquecimento em Misericórdia, de Lídia Jorge

Contribuindo para uma tradição literária portuguesa que interpola história e ficção, Misericórdia (2024 [2022]) – mais recente romance da escritora portuguesa Lídia Jorge – assume ao seu início tratar-se da “transcrição infiel” (Jorge, 2024 [2022], p. 7) de gravações de áudio feitas por Dona Alberti, protagonista que se aproxima do fim de sua vida, residente do Hotel Paraíso, lar de idosos. Tomada como dispositivo que força uma rememoração do passado, a noite ganha vida ao travar lutas com Alberti, sempre ameaçando-a com a morte diante da falta de lembranças da idosa. Entre recordações distantes e mais próximas, ergue-se um texto que apreende vidas que podem “conter mil, dois mil anos de vida somando o conto das vidas dos outros que passam por nós sem parar” (Jorge, 2024 [2022], p. 262). Apoiando-me em pensamentos de Paul Ricoeur (2007 [2000]) e de Roland Barthes (2004 [1984]) acerca de temas como memória, saber, esquecimento e morte, busco, neste trabalho, estabelecer uma leitura para o animal que a noite encena e toda a sua força para disparar um texto pleno de vida, no qual é arquivado o esforço de uma velhice que não se deixa esmaecer como o Atlas de Dona Alberti arruinado pela chuva.


Marianna Pais Carvalho da Silva – Carlos Malheiro Dias e a invenção do brasil moderno: imprensa, história e imaginação luso-brasileira

Carlos Malheiro Dias (1875–1941) figura entre os intelectuais portugueses cuja atuação no Brasil foi decisiva para a consolidação de uma determinada ideia de modernidade brasileira nas primeiras décadas do século XX. Escritor, jornalista, historiador e homem público, Malheiro Dias construiu uma trajetória marcada pelo trânsito intenso entre Portugal e Brasil, atuando como mediador cultural em um momento de redefinição das identidades nacionais no espaço atlântico lusófono. Esta comunicação propõe analisar o papel de Malheiro Dias tanto na elaboração de narrativas sobre a formação do Brasil quanto em sua intervenção direta na imprensa brasileira, compreendida aqui como um espaço privilegiado de produção simbólica, política e histórica. Partindo de sua inserção em jornais e revistas de grande circulação no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, argumenta-se que Malheiro Dias contribuiu para a difusão de uma leitura histórica do Brasil fortemente ancorada em valores de matriz luso-imperial. Em suas crônicas, ensaios e obras de caráter historiográfico, o autor frequentemente mobiliza o passado colonial como fundamento de uma continuidade civilizatória, na qual Portugal surge como origem legitimadora da cultura, da língua e das instituições brasileiras. Tal perspectiva não apenas dialoga com projetos intelectuais conservadores em voga no período, mas também participa ativamente da disputa por sentidos acerca da nação brasileira em um contexto de pós-Abolição e Primeira República. No campo da imprensa, Malheiro Dias desempenhou papel central ao articular literatura, história e intervenção política, contribuindo para a formação de uma opinião pública letrada. Sua escrita jornalística revela uma concepção pedagógica da imprensa, entendida como instrumento de orientação moral e histórica da sociedade. Ao mesmo tempo, seu trabalho evidencia como os periódicos funcionavam como verdadeiros arquivos em movimento, espaços de circulação de ideias, memórias e projetos de futuro. Assim, a imprensa brasileira não apenas acolheu Malheiro Dias, mas tornou-se o principal veículo de sua atuação intelectual e de sua influência no debate público. A comunicação também propõe refletir sobre os acervos e espólios relacionados a Malheiro Dias, compreendendo-os como fontes fundamentais para o estudo das redes luso-brasileiras de produção cultural. A análise de seus textos jornalísticos e historiográficos permite observar como se construiu uma determinada imagem do Brasil, marcada por tensões entre modernização e tradição, autonomia nacional e herança colonial. Nesse sentido, Malheiro Dias emerge como figura-chave para compreender os modos pelos quais a memória histórica e literária foi mobilizada na construção simbólica do Brasil moderno. Ao inscrever Malheiro Dias na linha temática “Espólios e acervos literários, históricos e artísticos luso-brasileiros”, esta comunicação busca contribuir para os estudos sobre circulação atlântica de ideias, destacando o papel da imprensa como acervo vivo e como espaço de negociação identitária entre Portugal e Brasil. Mais do que um observador externo, Malheiro Dias atuou como agente ativo na invenção de narrativas que ainda hoje influenciam a compreensão do passado brasileiro.


Marina de Souza Cruz Silva – Navegar é Preciso: pensamento, infância e identidade luso-brasileira em O Meu Pé de Laranja Lima e O Guardador de Rebanhos

Escrevo a partir de uma escola pública da Cidade de Deus, onde a literatura precisa abrir caminho entre a violência cotidiana, o analfabetismo funcional e a precariedade que atravessa o corpo e o ato de aprender. Nesse território historicamente silenciado, introduzir a literatura portuguesa não é apenas ensinar um conteúdo: é um gesto político, de resistência e de ampliação identitária. Aqui, a palavra resiste como pode — e, justamente por isso, torna-se essencial. Este trabalho nasce do encontro entre O Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos, e O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro — heterônimo fundamental de Fernando Pessoa. As obras não dialogam por semelhança formal, mas por atravessamento: revelam modos distintos de existir e pensar o mundo, iluminando a potência da sensibilidade como fundamento de leitura e identidade. Em José Mauro, Zezé liberta o pensamento: imagina para sobreviver. Sua criação é respiração dentro de um ambiente que o fere e o desautoriza a ser criança. Em Caeiro, o pensamento encontra acolhimento: o Guardador contempla o mundo sem feri-lo, oferecendo ao excesso um campo onde repousar. Se Zezé acende a imaginação para não sucumbir, Caeiro devolve a esse impulso um lugar de calma e pertencimento. Um liberta; o outro abriga. Entre eles, forma-se uma travessia luso-brasileira de afeto e reflexão.A partir do método que intitulo nanostruturas literárias, oriundo das pesquisas realizadas durante o mestrado, analiso esses gestos como núcleos simbólicos de alta densidade: pequenos pontos que reorganizam o texto inteiro. O Portuga, em José Mauro, é uma nanostrutura afetiva: sua escuta rompe o ciclo de brutalidade que cerca Zezé. O Guardador, em Caeiro, é uma nanostrutura ética: sua atenção ao mundo devolve dignidade ao pensamento. O diálogo entre as obras opera nesses pontos de condensação, onde afeto e presença sustentam uma ética da sensibilidade. É necessário considerar também a ferida histórica: há, no Brasil, uma resistência silenciosa à cultura portuguesa, fruto de uma herança colonial ainda viva no imaginário escolar — sobretudo nas periferias. Além disso, a literatura portuguesa deixou de ser componente obrigatório nos currículos brasileiros, o que reduziu drasticamente sua presença na educação básica. Inserir Fernando Pessoa, Caeiro e a tradição literária portuguesa na Cidade de Deus, portanto, não é apenas prática pedagógica: é intervenção cultural. É afirmar que a formação identitária brasileira precisa dialogar com sua herança lusófona, não por submissão, mas por completude. Simultaneamente, em Portugal, O Meu Pé de Laranja Lima é lido por crianças que encontram, no “Portuga”, uma imagem sensível de si mesmas — uma figura que acolhe, escuta e se responsabiliza. Essa inversão é fundamental: o colonizador passa a se ver pelo olhar do colonizado, produzindo deslocamentos que a historiografia não alcança. O ensino de literatura portuguesa no Brasil e de literatura brasileira em Portugal pode operar, assim, como espelhamento reparador. Ao trabalhar essas obras em um território marcado pela desigualdade, percebo que a literatura cria um espaço onde a sensibilidade não é punida, onde o pensamento é permitido e onde o diálogo luso-brasileiro deixa de ser abstrato para se tornar corpo — vivido, lido, sentido. Concluo que O Meu Pé de Laranja Lima e O Guardador de Rebanhos, lidos em atravessamento, formulam uma travessia estética, ética e identitária entre Brasil e Portugal. O menino que pensa para não se perder encontra o poeta que guarda para não se ferir. Entre eles, a literatura constrói a ponte que a história não sustentou. Se navegar é preciso, que seja pela palavra — e que cada leitor encontre, no mar comum, um lugar onde respirar.


Marina Otero Lemos Silva – Mapear a cidade ao alcance do olhar: a velha e a nova Lisboa nos poemas de Irene Lisboa

Um dia e outro dia: diário de uma mulher, publicado por Irene Lisboa em 1936 sob o pseudônimo João Falco, é um livro que pode ser lido da maneira fragmentada de um livro de poesia, mas também como unidade ao se levar em consideração uma leitura diarística. Nos poemas, a persona poética indubitavelmente feminina perscruta a cidade com o olhar, seja por trás de uma janela ou com os próprios pés, e descortina a cidade de Lisboa e seus habitantes, os lugares conhecidos e desconhecidos, o velho e o novo. O objetivo desta comunicação, portanto, é, através da análise de alguns poemas do livro Um dia e outro dia e de textos teóricos, explicitar como Irene Lisboa retrata uma variedade de cenários de uma mesma cidade e dos sentimentos que ela suscita por meio da descoberta de um olhar mutável sobre os espaços por onde se circula, mesmo com a monotonia própria da rotina, dos locais por onde se transita cotidianamente, da repetição de logradouros.


Marseille Lopes Costa – Entre o mito e a modernidade: paganismo e transgressão em textos de autoria feminina luso-brasileira do início do século XX

Este estudo analisa a presença do paganismo na obra de escritoras portuguesas e brasileiras do início do século XX, como Beatriz Delgado, Florbela Espanca, Judith Teixeira, Rosalina Coelho Lisboa e Eunice Caldas. Nesta comunicação, delimito o corpus às autoras Beatriz Delgado e Rosalina de Castro, analisando de forma mais aprofundada como a temática do paganismo se manifesta e se estrutura em seus textos. Busca-se mostrar como essas autoras recorrem a imagens mitológicas, símbolos da natureza e referências à antiguidade para construir uma estética literária que valoriza o corpo feminino, o desejo, a sensualidade e a subjetividade, rompendo com os padrões morais de sua época.  Apontamos como o paganismo literário funciona como um instrumento de afirmação da autonomia feminina, permitindo às escritoras explorarem temas tradicionalmente considerados transgressores ou marginais, como o erotismo, a liberdade do corpo e a valorização da experiência. Ao reinterpretar mitos e símbolos antigos, essas escritoras dialogam com tradições literárias anteriores para criar narrativas inovadoras que desafiam normas estéticas e sociais vigentes. O paganismo, nessa perspectiva, não é apenas um recurso estilístico, mas uma estratégia de resistência cultural e uma forma de afirmar a liberdade de expressão da subjetividade feminina, contribuindo para a construção de uma literatura autônoma e transgressora.


Mauricio Matos – Apontamentos para o Cancioneiro dos Bastardos de Dom Dinis: Afonso Sanches e Pedro, Conde de Barcelos

Pedro, conde de Barcelos (1287-1354), e Afonso Sanches (1289-1329) são os dois primogênitos bastardos de Dom Dinis, ambos trovadores, como o pai, ambos mais velhos do que Afonso IV (1291-1357), o herdeiro, que jamais foi trovador. Frutos das aventuras “extraordinárias” de Dom Dinis (1261-1325), com nobres damas influentes de sua coorte, destacaram-se como trovadores de cancioneiros individuais mais ou menos volumosos. Em situações cotidianas, sobretudo as tenções retratam as relações sociais do paradigma espácio-temporal a que se referem. A presente comunicação tem por objetivo introduzir ao estudo dos cancioneiros de Pedro de Barcelos e Afonso Sanches como fonte testemunhal das relações socioculturais na coorte de Dom Dinis e da Rainha Santa Isabel (1271-1336). 


Micael Dutra – Corpo, mito e brasilidade em Mário de Andrade

Esta pesquisa, desenvolvida no âmbito da Bolsa João do Rio do Real Gabinete Português de Leitura, investiga como corpo, ritmo e performance constituem um eixo fundamental da poética e da reflexão etnográfica de Mário de Andrade, articulando essegesto modernista às primeiras descrições coloniais do Brasil presentes no acervoBrasiliana do RGPL. Os relatos de Hans Staden e Jean de Léry, produzidos nos séculos XVI e XVII e conservados no acervo da instituição, oferecem algumas das primeiras representações textuais do corpo indígena em ação: dançando, cantando, guerreando, celebrando e performando seus ritos. Ao mesmo tempo, esses documentos fixam uma visão europeia atravessada por exotização, distância cultural e enquadramento colonial. A pesquisa parte da análise dessas obras da Brasiliana como arquivo de memória luso-brasileira, compreendendo que o registro de práticas corporais indígenas constitui um ponto de contato entre mundos, mas também um espaço de disputa simbólica. A leitura atenta de capítulos específicos de Hans Staden, como os que descrevem danças rituais coletivas realizadas diante dos maracás, e das descrições etnográficas de Léry sobre as rodas cerimoniais conduzidas por caraíbas, revela a presença de repertórios performáticos marcados pela oralidade, circularidade, ritmo, uso de adornos corporais, chocalhos e plumárias. Tais práticas, registradas em perspectiva colonial, configuram um corpus no qual o corpo aparece simultaneamente como signo cultural e como lugar de representação. Ao confrontar esses documentos com a produção de Mário de Andrade, especialmente Macunaíma, Clã do Jabuti, Ensaio sobre a música brasileira e O Turista Aprendiz, torna-se evidente que o modernista não apenas consulta o arquivo europeu, mas o ressignifica a partir de uma sensibilidade antropológica e estética própria. Em Macunaíma, rapsódia fundada em colagem, oralidade, ritmo e carnavalização, o corpo do herói é metamorfoseado, ritualizado e performado. Mário opera uma espécie de etnopoética modernista, na qual o mito indígena, o repertório ritual e o gesto malandro se tornam operadores estéticos de uma brasilidade crítica.


Michelle Cardoso de Sá – Autobiografia sem fatos ou Livro do desassossego: a leitura e o livro

A pesquisa busca discutir passagens do Livro do Desassossego (2023), de Fernando Pessoa, que permitam pensar o desmantelamento da autoria suscitado por uma crítica proveniente da noção de uma “autobiografia sem fatos”, ao deslocar a tradição do sujeito da escrita em direção ao equívoco, ao caminho da errância, que se inicia, paradoxalmente, como alude Jean-Luc Nancy (2016), “na mesma encruzilhada que sua ereção”. Nessa vereda, tal autoria se constrói (ou se ensaia) pela via da linguagem, o que atua como pressuposto de qualquer ser, consoante Eduardo Lourenço (2017), e não o contrário, movimento que comumente proviria da vida exterior. A singular escrita do L. do D., portanto, poderia ser pensada como autoinscrição da encenação da leitura, expressa na noção “história sem vida”, na qual se ensaia uma autoria sem qualquer hipoteca e, por isso, nula, pois faltante. 


Natália Cristina de Aquino Gomes – O Busto de Camões de Rodolfo Pinto do Couto: arte, memória e identidade luso-brasileira no Real Gabinete Português de Leitura

A presente proposta de comunicação apresenta a trajetória do “Busto de Camões”, obra do escultor português Rodolfo Pinto do Couto (1888-1945), cuja versão em bronze encontra-se em exposição no Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro. A análise parte da compreensão de como a peça, marcada por notável qualidade artística e profundo simbolismo, tornou-se referência para a valorização da herança luso-brasileira, reiterando o papel do escultor como agente cultural e articulador entre as duas nações. Pinto do Couto destacou-se no Brasil por sua proximidade com a comunidade portuguesa e por sua produção voltada para figuras emblemáticas da cultura lusa, sendo frequentemente requisitado como representante da arte de Portugal em solo brasileiro. A criação do busto de Camões expressa essa ligação, tanto pelo tema escolhido quanto pela forma como a obra foi inserida e celebrada em contexto institucional e memorial, consolidando-se como símbolo da identidade partilhada. Após ser admitido como Sócio Contribuinte do Gabinete Português de Leitura, em 1924, Pinto do Couto propôs à instituição a aquisição de seu busto de Camões, justificando o gesto como uma ação patriótica em benefício do patrimônio do Gabinete. A sugestão ganhou ressonância na imprensa, onde o escultor convocava artistas e homens de letras portugueses e brasileiros para uma grande exposição de belas-artes, cujos resultados seriam direcionados à sustentabilidade da instituição. Essa mobilização evidencia o envolvimento afetivo e estratégico de Pinto do Couto, mas também sua visão da arte como elemento de fortalecimento dos laços históricos e culturais entre Brasil e Portugal. O processo de instalação da obra, entretanto, foi gradual e permeado por negociações. Em 1924, o modelo em gesso do busto foi exposto no salão da biblioteca do Gabinete, conforme registrado pelos periódicos cariocas. No ano seguinte, a imprensa destacou a peça como um dos melhores trabalhos do escultor, ressaltando a postura heroica e iluminada de Camões esculpida por Couto, que rompe com representações tradicionais do poeta marcadas pela fragilidade. O busto propõe, assim, uma imagem épica e altiva, capaz de sintetizar a grandeza literária e simbólica do homenageado e, simultaneamente, servir de ponte identitária entre os dois países. A recepção crítica revela o impacto estético e afetivo da obra, frequentemente elogiada pelo domínio técnico do escultor e sua capacidade de traduzir o lirismo e a força do poeta em formas plásticas. Em 1928, o escritor Saul de Navarro, enfatiza que Pinto do Couto soube captar a essência do poeta-soldado, atribuindo à escultura uma síntese da identidade luso-brasileira e reconhecendo o artista como um importante agente na reinterpretação de ícones portugueses no Brasil. O reconhecimento da obra, contudo, não eliminou as dificuldades para sua incorporação definitiva ao Real Gabinete Português de Leitura. Durante alguns anos, a permanência do busto demandou esforços, articulações e sensibilização de membros influentes da comunidade luso-brasileira, como atesta a correspondência enviada por Pinto do Couto ao Conde Antônio Dias Garcia, em 1932. O escultor apela ao patriotismo de seus compatriotas para que o busto, já fundido em bronze, fosse finalmente adquirido e instalado de forma permanente no vestíbulo da instituição, em ocasião simbólica para a Colônia Portuguesa. A efetivação da aquisição só foi confirmada em 1933, com o registro de recibo de pagamento do bronze, preservado no Arquivo Histórico do Museu Nacional de Belas Artes. O documento atesta o compromisso do escultor e da comunidade em garantir um lugar de destaque à obra e contribui para a compreensão dos trâmites e obstáculos enfrentados na consolidação da presença do busto no Real Gabinete Português de Leitura. O gesto reforça o valor histórico e simbólico da obra para o patrimônio cultural português no Brasil, evidenciando sua função como elemento de memória e de celebração da identidade compartilhada. Mesmo passadas algumas décadas, o busto de Camões continuou a ser reconhecido e celebrado. Em 1944, o escritor português Júlio Brandão ressaltava a qualidade da peça, considerando-a uma das realizações mais significativas de Pinto do Couto no Brasil. Brandão destaca a seletividade do artista, sua maestria no retrato e a expressividade das formas, que conferem à escultura um dinamismo capaz de transcender o aspecto físico e revelar dimensões simbólicas e afetivas. Ao mencionar a meia-estátua de Camões como patrimônio do Real Gabinete Português de Leitura, Brandão reforça o papel da obra na preservação da identidade luso-brasileira e no fortalecimento dos vínculos culturais entre Portugal e Brasil. A trajetória do busto de Camões, portanto, ilustra como a arte pode atuar como instrumento de aproximação, diálogo e perpetuação da memória coletiva, consolidando-se como referência para a compreensão da presença portuguesa nas artes do Brasil e da importância do intercâmbio cultural entre as duas nações. A análise do percurso da obra, desde sua concepção até sua incorporação definitiva e consagração pública, revela a complexidade dos processos de legitimação de símbolos culturais e o papel dos agentes envolvidos, como artistas, instituições, imprensa e comunidade na construção e valorização do patrimônio artístico.


Nicolle Dias Alves de Souza e Madalena Vaz Pinto – Memória, corpo e escrita como arquivo crítico do colonialismo em Caderno de memórias coloniais

Em nossa apresentação pretendemos analisar Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo, desenvolvendo uma reflexão sobre os modos como a obra mobiliza memória, corpo, sexualidade, identidade e escrita para compreender e desestabilizar o legado do colonialismo português. Nosso objetivo é mostrar que o livro, ao articular experiências íntimas e acontecimentos históricos, constrói uma narrativa em que a vivência pessoal se torna testemunho, evidenciando como o colonialismo ultrapassa o plano institucional e se inscreve nos vínculos familiares, nos gestos cotidianos e na formação subjetiva da narradora. Iniciaremos discutindo o caráter inacabado da memória na obra na obra. Em Caderno de Memórias Coloniais, lembrar não significa apenas recuperar o passado, mas revisitá-lo de forma fragmentada e crítica. A narradora retorna à infância consciente de que passado, presente e futuro se entrelaçam nesse movimento de recordação, pois, como ela própria afirma, “todo o passado, presente e futuro ali se fundiram, naquela viagem, e eu só posso falar usando as palavras de fronteira, de transição, manchadas, duais que aí se formaram” (Figueredo, 2015, p. 128). O corpo ocupa lugar central nesse processo, funcionando como um arquivo sensível das marcas emocionais do colonialismo. Assim, memória e corpo, interligados, revelam a permanência das estruturas coloniais no presente. Ademais, examinaremos o impacto do deslocamento físico e simbólico da narradora ao deixar Moçambique para viver em Portugal. Esse movimento intensifica o sentimento de desenraizamento e produz uma ruptura identitária marcada pelo não pertencimento. Dividida entre dois espaços que não a acolhem plenamente, a narradora enfrenta o estranhamento e a discriminação como experiências cotidianas que reforçam sua condição liminar. A dificuldade de adaptação escolar e social evidencia que as fronteiras coloniais continuam operando na constituição do sujeito, mesmo após o fim formal do império. A sexualidade constitui outro eixo fundamental da narrativa. No livro, a descoberta do corpo e do desejo ocorre em meio a experiências dolorosas, revelando como o corpo feminino é atravessado por relações de poder. Ao narrar essas vivências, a autora expõe mecanismos de silenciamento e dominação que atuam no espaço social, mostrando como o colonialismo e o patriarcado se inscrevem de forma persistente nos corpos. Ao escrever Caderno de Memórias Coloniais, Isabela Figueiredo rompe o pacto de silêncio que envolveu o colonialismo português. A escrita possibilita a exposição de violências e contradições que atravessam tanto a experiência colonial quanto a formação da narradora como filha de colonos. Ao narrar essas memórias, a autora constrói um relato marcado pelo enfrentamento de lembranças difíceis e pela problematização de sua própria posição dentro do contexto colonial. Nossa apresentação pretende mostrar que a articulação entre memória, corpo, violência, identidade, sexualidade e escrita evidencia, não apenas o impacto individual da experiência colonial, mas também seu alcance social. Nesse sentido, o livro problematiza as relações entre trauma e memória a partir das experiências narradas, compreendendo o trauma como uma marca que se inscreve no corpo e reaparece de forma fragmentada e descontínua. A memória traumática, assim, não se organiza como narrativa linear, mas como reaparição de sensações, afetos e imagens que atravessam o presente. Ao trabalhar com essas marcas corporais e afetivas, a obra reforça sua relevância literária e política.


Patrícia Leitão de Almeida – A biblioteca das Marias: arquivos pessoais e o palimpsesto coletivo em Novas cartas portuguesas

Esta comunicação propõe uma leitura do livro Novas cartas portuguesas, publicado em 1972 por Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, a partir da ideia de uma biblioteca como dispositivo textual. Argumentamos que a força e a originalidade da obra têm origem em operações de curadoria pessoal e reescrita, que acabam por configurar a obra como um meta-arquivo literário-político. As três autoras, em um primeiro momento, se organizam em seus arquivos pessoais: suas bibliotecas autorais pré-existentes, que operam como fator de impulso para a escrita coletiva das Novas cartas portuguesas. Da biblioteca de Maria Isabel Barreno, temos a herança de um olhar sociológico que focaliza e disseca a condição das mulheres. De Maria Teresa Horta, a linguagem lírica e erótica que transformam o desejo e o corpo em territórios de confronto. Por fim, de Maria Velho da Costa, herda-se a fragmentação de gêneros e narrativa. Desta maneira, a obra escrita a três mãos não surge do zero, mas carrega o peso de três grandes acervos e heranças pessoais, que fornecem a matéria prima literária temática e formal para a voz coletiva. Em um segundo movimento, a obra direciona sua potência para uma grande intervenção, desta vez, no arquivo público externo da época: o cânone literário, religioso e conservador português em meio a uma ditadura. O livro, assim, subverte o cânone das Cartas portuguesas, criando um corpo histórico à Mariana Alcoforado, através de uma reescrita coletiva que dá voz às mulheres silenciadas. Ao desmontarem a biblioteca do poder, as autoras constroem uma contra-biblioteca, recuperando figuras femininas históricas silenciadas, escrevendo assim uma forma de resistência alternativa. O ponto principal levantado neste trabalho é de que a potência das Novas cartas portuguesas como ato político e literário reside na relação destes dois níveis bibliotecários. A obra final, é um dispositivo de reorganização de conhecimento, que ao fundir o nível íntimo com o coletivo e o pessoal com o político, propõe uma nova catalogação da experiência feminina. Desta forma, analisar esta dupla estante (pessoal das autoras e pública ressignificada por elas) permite que possamos compreender Novas cartas portuguesas como uma biblioteca imaginária fundamental, onde busca, página por página, reescrever os arquivos da liberdade.


Pedro Martins Cruz de Aguiar Pereira – “Li vaga -, inerte – e sonhadoramente”: os limites da leitura no Fausto, de Fernando Pessoa

A presente comunicação tem por intenção realizar uma apreciação crítica sobre a ideia de leitura em dois poemas lírico-dramáticos – “Li vaga -, inerte – e sonhadoramente” [fins de 1909] e “Não leio já; queria abrir um livro” [1912-1913?] – que compõem a obra Fausto (2018) [1907-1933], escrita por Fernando Pessoa (1888-1935). Dessa forma, o estudo crítico realizado reconhece que o problema da leitura encontrado nesses específicos poemas de Pessoa partem do ideal de falibilidade da leitura enquanto ferramenta do saber, ou seja, os poemas estabelecem que há um limite, potencialmente intransponível, entre o ato de ler e a mobilização e arregimentação do conhecimento humano que viria da leitura. Assim, entende-se que esses dois poemas denunciam a ruinância dos valores de uma hermenêutica ocidental calcada nos paradigmas da interpretação e compreensão, cuja culminância se deu no século XIX, como vias próprias para a manutenção e a ampliação do conhecimento do e sobre o mundo. Assim, reconhece-se como necessária a ruptura e a postura negativa do Fausto pessoano diante de tais valores de leitura. A partir da exposição do problema central da comunicação, vale esclarecer três pressupostos estabelecidos para essa apreciação crítica. O primeiro pressuposto está na escolha editorial, ou seja, que para a escolha da edição da obra Fausto, utilizou-se da que fora editada e publicada por Carlos Pittella pela Tinta-da-China em 2018. A importância de salientar essa decisão vem da própria organização feita para a edição, que apresenta a obra enquanto conjunto de poemas sob uma égide de Fausto e que privilegia uma divisão em seções temáticas dispostas em ordem cronológica. Essa edição se apresenta como contraponto a duas organizações anteriores – Primeiro Fausto (1986), editada por Duílio Colombini, e Fausto – Tragédia Subjetiva (Fragmentos) (1988), editada por Teresa Sobral Cunha – que editaram os textos de Pessoa enquanto uma peça teatral, revelando, como já disse Jerónimo Pizarro em “A ansiedade da unidade: uma teoria da edição”, uma necessidade dos editores de organizar e estabilizar o texto literário pessoano, quando as condições materiais de alguns desses textos, como o de Fausto, não necessariamente habilitam tal tipo de organização. O segundo pressuposto está relacionado ao que se entende por leitura para além do que é reconhecido sobre o tema na obra de Pessoa. Nesse ponto, é necessário afirmar a dívida que a comunicação tem a Marcel Proust (1877-1921) em relação ao seu livro Sobre a leitura (1989) [1906], no qual, apresenta a leitura como uma conversação na qual não haverá respostas e que tão pouco se conseguirá estabelecer qualquer tipo de aproximação entre a sabedoria do autor e a sabedoria do leitor. Para Proust, a leitura, como um ato insuficiente, é capaz, somente, de gerar desejos e uma forma de intuição. Notavelmente, vê-se que essa ideia de insuficiência da leitura estabelecida por Proust é radicalizada em Fausto, pois esses mesmos valores de intuição e de desejo são questionados. O terceiro e último pressuposto da comunicação, enfim, jaz na fortuna crítica pessoana, mais especificamente, nas obras de consulta. Nesse caso, valeu-se de dois específicos livros: O poema impossível: o “Fausto” de Pessoa (1986), de Manuel Gusmão, no qual os antinômios por ele apresentados – conhecer/ignorar, compreensão/incompreensão e sentido/mistério – são fundamentais para entender os movimentos internos dessa obra literária de Pessoa; e Jazo, Ele (a Queda). Fausto de Fernando Pessoa. Vol: 1 (2018), de Marcus Alexandre Motta, no qual identifica a obra Fausto como a queda da mente humana para a sua interioridade, da qual não há a necessária escapatória e a leitura, um ato de exteriorizar-se, seria uma forma de fracassar.


Raphael Felipe Pereira de Araujo – Estrelando David Lynch: Vim porque me pagavam, de Golgona Anghel

A biblioteca de Golgona Anghel tem despertado o interesse de diferentes leitores de sua poesia: Pedro Eiras (2017) destaca o modo como a poeta põe em cena uma “itinerância de vozes, locais e tempos”, e Marlon Augusto Barbosa (2022) elabora a sua leitura da poesia de Anghel precisamente a partir da imagem de uma biblioteca sem limites, que põe em crise as leis da indexação, uma vez que os poemas de Anghel aproximam autores heterogêneos – como Jacques Lacan, Arthur Miller e Eça de Queirós – e põem em questão até mesmo o que pode ser contido no arquivo de uma biblioteca, possibilitando o convívio dessas referências textuais com elementos do cotidiano, como o perfume Chanel nº 5, batatas fritas e a Disneylândia. A partir da leitura cerrada de alguns de seus poemas, o objetivo desta comunicação é investigar o modo como a biblioteca de Anghel abriga outras artes em seu acervo desconcertado, com uma atenção particular ao caso do cinema de David Lynch. Em se tratando de Vim porque me pagavam (2011), Lynch se torna uma personagem tão importante quanto aquelas que Golgona encontra nos livros de literatura, de modo que as cenas de seus filmes se sobrepõem às cenas da literatura finissecular portuguesa, ou mesmo às cenas dos sonetos de Luís de Camões. Em uma entrevista para a professora Andreia Castro e para o professor Eduardo da Cruz, a poeta escolhe as palavras “encontro” e “passagem” para definir a sua relação com a escrita. Sendo assim, gostaríamos de nos perguntar: o que o leitor dos poemas de Golgona encontra e passa a transportar uma vez que adentra essa biblioteca desastrada? 


Roberto Xavier de Oliveira – O Brasil de Agustina Bessa-Luís

No que pese o Brasil na produção literária de Agustina Bessa-Luís, verifica-se como a autora utiliza do país como um refúgio de crescimento econômico para muitas de suas personagens, algo perceptível na obra Um Cão que Sonha (1997). Com efeito, a histórica circulação de portugueses em território brasileiro em busca de enriquecimento foi um fato inerente à vida da autora, cujo pai acumulou grande fortuna durante a juventude no Rio de Janeiro, o que até mesmo lhe granjeou a alcunha de “brasileiro”, como Agustina revela em sua autobiografia (2014). Para além disso, em texto escrito para a Academia Brasileira de Letras (2000), a romancista também já pontuou como os contos de Machado de Assis e os romances de José de Alencar guiaram as suas primeiras impressões da literatura e do povo brasileiro. De maneira mais robusta, tais percepções são encorpadas pela romancista em seu diário de viagem Breviário do Brasil (1991). Escrito durante um itinerário pelo Brasil, o livro conta com reflexões que resgatam as semelhanças do país com Portugal ao mesmo tempo que delimita as diferenças entre o povo brasileiro e o povo português. Ouro Preto lembra o Porto na medida em que Pernambuco resplandece aos olhos de Agustina no que o Capibaribe é capaz de singularizar o estado. Como Anamaria Filizola (2003) já pontuou, a viagem (d)escrita no livro não foi a primeira vez da romancista no Brasil, bem como também não foi a última. Sem desejar pontuar todos os momentos em que Bessa-Luís esteve no país, nota-se no texto material suficiente para que algumas considerações sejam traçadas sobre o Brasil de Agustina. O caminho percorrido de norte a sul e o contato com a comunidade brasileira possibilitam a autora interpretar o país com um olhar crítico e criativo. Profundamente influenciada pelos costumes tradicionais portugueses, a visão de Agustina sobre as terras brasileiras sugere um encontro de culturas que fortemente influenciaram uma à outra ao passo que também distanciaram-se. O Brasil é revisto pelos olhos de uma portuguesa em um texto que sutilmente parece dialogar com O Labirinto da Saudade (1978), de Eduardo Lourenço. Não que uma revisão colonial fosse objetivo de Agustina. Contudo, é inegável o diálogo que se estabelece entre nações mediante a tinta e a imaginação da Sibila do Douro. À vista disso, a presente comunicação visa apresentar uma leitura inicial sobre como a cultura brasileira é lida por Agustina e em que medida o seu texto é construído a partir de um (des)encontro da história luso-brasileira. Para isso, dialogar-se-á com os textos já mencionados neste resumo, como também com o prefácio escrito por Filizola (2022) para a republicação da obra pela editora portuguesa Relógio D’Água, como também com o estudo de Catherine Dumas (2002) que discute o gênero desse livro. Alguns romances da autora também serão de grande importância para que seja possível refletir sobre o Brasil criado por Agustina.


Rodolpho Pereira do Amaral – Precariedade e desenraizamento em Myra, de Maria Velho da Costa

O direito à migração tornou-se um dos mais prementes debates contemporâneos, bem como a recepção dos que, por força ou vontade, decidem se deslocar. Maria Velho da Costa, com o seu romance Myra (2008), tematiza a vida precária de uma imigrante russa ilegal em Portugal, traçando o percurso sinuoso da personagem, que faz da sua deambulação física também um questionamento existencial e uma tentativa de construção subjetiva. Este trabalho se ocupa de elaborar o conceito da casa para quem, ilegalmente, ocupa um país que não é o seu, faz uso de uma língua estranha à sua e permanece sofregamente numa fronteira identitária. A flutuação e o desenraizamento tratados em Myra dão subsídios para que tratemos do desabrigo, da violência e da fragilidade, estabelecendo a materialidade do corpo como único espaço possível de habitar. Para tanto, mobilizamos autores cujas obras tematizam o corpo errante num espaço estrangeiro, e outros que, numa perspectiva literária, abordam a casa e o trabalho empreendido para torná-la um lar.


Rodrigo Franco da Costa – Vestígios da Restauração no Rio de Janeiro

Esta apresentação objetiva explorar as possibilidades de pesquisa histórica sobre a Restauração de Portugal de 1640 com os registros escritos sobre o evento datados do ano seguinte do ocorrido (1641). Entre os documentos destacam-se a Oração Apodixica aos scismaticos da pátria de autoria de Diogo Gomes Carneiro e a Relação da aclamação ocorrida no Rio de Janeiro, obra anônima.


Rosiane Ferreira de Castro – O repositório da Universidade Estadual do Maranhão como dispositivo de poder: visibilidade, normas e produção do conhecimento científico

Nas universidades contemporâneas, os Repositórios Institucionais (RIs) ocupam posição estratégica nas políticas de informação científica, sendo amplamente associados à democratização do acesso ao conhecimento, à preservação da memória institucional e à consolidação do movimento de acesso aberto. Inseridos, em geral, no âmbito das bibliotecas universitárias, os RIs são frequentemente apresentados como sistemas técnicos e administrativos voltados à organização, disseminação e preservação da produção acadêmica. Entretanto, essa abordagem tende a naturalizar o Repositório Institucional como um instrumento neutro, desconsiderando os processos de poder, seleção, hierarquização e legitimação que o atravessam. O problema de pesquisa que orienta este estudo consiste em compreender de que modo o Repositório Institucional, ao organizar e tornar visível a produção científica, atua como um dispositivo de poder simbólico, participando da definição do que é reconhecido como conhecimento legítimo no interior da universidade. Parte-se do entendimento de que o RI não apenas armazena documentos, mas produz sentidos, estabelece regimes de visibilidade e contribui para a construção da memória científica institucional. O objetivo do trabalho é analisar o Repositório Institucional da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) como um dispositivo de poder, articulando os conceitos de dispositivo, governamentalidade e poder simbólico, a partir do diálogo com Michel Foucault e Pierre Bourdieu. A análise insere a UEMA como um espaço social apropriado, historicamente constituído a partir da reorganização administrativa do Estado e marcado por disputas no campo da educação pública. Localizada em um território periférico da cidade de São Luís (MA), a universidade se configura como um campo de forças no qual diferentes agentes ocupam posições distintas conforme os capitais culturais, sociais e simbólicos que detêm. Inspirado em Bourdieu, o estudo compreende a universidade como um espaço social estruturado por hierarquias e distinções, onde a produção científica se inscreve em relações de poder frequentemente naturalizadas. O método adotado é de natureza qualitativa, de caráter teórico-analítico e interpretativo, fundamentado em pesquisa bibliográfica e documental. A abordagem teórica se embasa em referenciais de autores como Foucault, Bourdieu, articulados a contribuições de autores da Ciência da Informação e biblioteconomia como Le Coadic e Milanesi que compreendem os sistemas de organização do conhecimento como práticas discursivas e regimes informacionais. A análise concentra-se nas normas, políticas, estruturas organizacionais do Repositório Institucional da UEMA, entendidas como elementos constitutivos do dispositivo. Enquanto sistema de comunicação científica, o RI organiza e representa oficialmente a produção intelectual da universidade por meio de padrões normativos, definição de metadados, vocabulários controlados e tipologias documentais. Essas práticas configuram uma ordem discursiva que interfere diretamente nos regimes de visibilidade, reconhecimento e consagração científica. Assim, conclui-se que o Repositório Institucional atua como uma tecnologia de poder simbólico, articulando saber, poder e discurso, e participando ativamente da construção da identidade e da memória científica da UEMA. Reconhecer essa dimensão permite compreender o RI em sua complexidade, não apenas como instrumento técnico, mas como espaço de disputas e negociações no campo acadêmico, fundamental para o desenvolvimento de práticas informacionais mais críticas, reflexivas e socialmente comprometidas.


Sérgio Luís Silva de Abreu – O espiritismo como posicionamento político e impacto cultural: uma leitura do romance O amor tudo consegue, de Maria O’Neill

Maria O’Neill (1878-1932) chama a atenção no que tange à literatura de autoria feminina em Portugal na primeira metade do século XX, seja por sua participação política no movimento feminista, seja por seus ideais socialistas, ou ainda por suas crenças religiosas, quiçá por sua robusta produção literária. Maria O’Neill foi uma escritora e intelectual portuguesa que se envolveu em diversas frentes de interesse, mas foi sobretudo no Espiritismo que se destacou. As ideias que ali se apresentavam coadunavam com uma série de reivindicações sociais por igualdade de direitos em seu tempo, como era o caso das mulheres, já que na doutrina espírita não havia distinção de gênero, justamente pela possibilidade de o espírito poder habitar em qualquer corpo. Para além disso, a autora foi uma voz potente politicamente, participando do Conselho Nacional de Mulheres Portuguesas, colaborando para diversos periódicos dirigidos às mulheres e para aqueles de cunho comunista, como era o caso de O Combate, onde debatia a condição feminina e criticava a recém-instaurada república por ter usado a mulher como propaganda pública, mas não reconhecer a capacidade delas de terem seus direitos. As referências espíritas em sua contribuição à imprensa e em sua produção literária são inegáveis, constituindo aqui o nosso objetivo principal de pesquisa. Dedicar-nos-emos, nesta comunicação, a analisar O amor tudo consegue, romance de 1929, para evidenciar como o tema do espiritismo foi abordado e sua importância no desenvolvimento da narrativa, revelando como influenciou o meio literário e cultural em Portugal no início do século XX.


Tamara Roza Campos Amaral – As flores encontram o humano: a poética reconciliadora de Ana Luísa Amaral a partir do pensamento (eco)poético

Esta comunicação propõe uma leitura ecopoética da poesia de Ana Luísa Amaral, centrada a partir da recorrência de um campo lexical voltado à natureza, à vida animal e à vegetal. Nessa leitura, esses elementos orgânicos, longe de desempenharem uma função meramente descritiva, constituem núcleos simbólicos de uma poética do cuidado e de uma ética da atenção ao outro e ao mundo. Na tessitura da linguagem de Amaral, o léxico natural adquire valor ontológico, instaurando uma forma de pensamento poético que interroga os vínculos entre o humano, o não humano e o mundo. Assim, a natureza é compreendida não como cenário, mas como instância de coabitação e alteridade — um território de enunciação em que se dissolvem fronteiras entre corpo, linguagem e matéria viva. Observa-se, portanto, que a poética de Ana Luísa Amaral constroi um pensamento sensível que recoloca o humano em um regime de coexistência com o mundo natural. O gesto mínimo de dizer “bom dia”, regar uma flor, observar um inseto, contemplar uma vizinha e o seu sofrimento, converte-se em núcleo ético e estético capaz de redefinir a partilha do sensível, para pensar a partir de Rancière. Nessa perspectiva, a ecopoética que se apresenta aponta para um modo de habitar o mundo: uma abertura ao outro, aos seres não humanos, ao tempo e à vulnerabilidade comum. Assim, a poesia de Ana Luísa Amaral é atravessada pela escuta e pela atenção, ampliando a experiência do cotidiano, onde o sujeito é reinserido em um horizonte de relação e, no qual,  o cuidado e a responsabilidade são formas de resistência diante da violência e da perda. Avançando na perspectiva, o gesto poético de Ana Luísa Amaral inscreve-se como prática de reconciliação e de resistência: reconciliação, porque busca reatar a comunicação entre o sujeito e o cosmos, entre palavra e mundo; resistência, porque afirma, frente à destruição e à indiferença contemporâneas, a persistência da delicadeza e do gesto de paz como missões éticas. Os “jardins” e as “flores” que permeiam sua poesia configuram, portanto, espaços liminares e de encontro — não apenas topografias, mas paisagens interiores e linguísticas, onde se enunciam a vulnerabilidade, a alegria e o espanto como modos de estar no mundo. Através dos poemas analisados é possível empreender uma leitura da ética, da delicadeza e da reciprocidade, que encontram ressonância nas formulações de Michel Collot, Jean-Claude Pinson e Kenneth White para os quais a experiência poética implica uma reorganização profunda do vínculo entre o eu e o mundo. Desse modo, ao mostrar que a vida humana participa de um mesmo ciclo de luz, dor, renovação e fragilidade, estruturando o cosmos, a poesia de Ana Luísa Amaral revela a potência transformadora dos gestos mínimos e das formas discretas de presença. Portanto, a força política de sua obra não está no discurso explícito, mas na capacidade de instaurar um modo de ver e de sentir, reafirmando a interdependência das existências. Nesse sentido, sua escrita contribui para pensar uma forma de vida mais atenta, mais justa e mais aberta, uma forma de “habitar poeticamente a Terra”, promovendo o encontro entre o humano e a natureza.


Tamires da Silveira Borges Cavalcante – A narrativa e a visualidade: uma análise de “Bichos”, de Miguel Torga

Neste artigo, a partir das reflexões propostas por Marilena Chaui, em “Janela da alma, espelho do mundo”(1988), o objetivo deste trabalho é análise das relações de trabalho presente na vida dos animais da obra “Bichos” de Miguel Torga, de 1940. Traçando um paralelo entre as ilustrações elaboradas no documentário “Grandes Livros – “Bichos” de Miguel Torga” da RTP Ensina e, as representações imagéticas propostas pela própria narrativa, o trabalho se propõe a refletir acerca das concepções filosóficas inconscientes que a obra abarca. Para além do visível, o presente artigo tem o intuito de estabelecer conexões entre texto verbal e texto não verbal, ressaltando a forma como a imagem, tanto aquela evidenciada pela palavra, quanto aquela evidenciada pelo traço, é capaz de produzir quanto sintoma de um inconsciente coletivo social. O estudo busca ainda evidenciar a maneira como a manutenção e o exercício de um determinado ofício dão sentido à vida dos animais e dos homens presentes na narrativa. A valorização das atividades vinculadas a cada uma das espécies é um dos pontos de destaque no processo de antropomorfismo na qual a obra está inserida. Buscando entender o ofício quanto um trabalho inevitável à condição do ser, este trabalho investiga a maneira como cada uma das atividades exercidas pelos personagens de Torga agem de forma a serem em si mesmas um mecanismo de construção da dignidade animal-humana.


Teresinha Rodrigues Prada Soares – Raízes luso-açorianas de Heitor Villa-Lobos (1887-1959) na cidade do Rio de Janeiro: em busca de ressonâncias atávicas em sua obra musical

Após a recente divulgação de informações a respeito da ancestralidade luso-açoriana do compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos (Prada, 2024; Mendes & Forjaz, 2009), muitas análises a respeito de sua música podem passar por uma revisão, fundamentada na etnicidade que ora se apresenta, posto que a questão cultural, buscada em uma convivência do compositor com a família e comunidade luso-açorianas, pode ser trabalhada como um fator que ressoe em sua vasta produção artística. Este é o objeto da presente proposta. A musicalidade de origem portuguesa de composições suas, como em Cirandas, Cirandinhas, Guia Prático (álbuns para coral infanto-juvenil), do Canto Orfeônico, canções e modinhas, somado à música de raízes ibéricas dos instrumentos de cordas (cordofones) trazidos durante o Brasil Colonial (violas dedilhadas, em especial), e o quanto de tais raízes foram frequentemente revividas por uma forte imigração luso-açoriana para a cidade do Rio de Janeiro durante todo o século XIX e início do XX (Gonçalves, 2019; Ribeiro, 2010; Rodrigues & Rocha, 2008), podem ser fatores abordados pelo que teriam influenciado em seu repertório (o enfoque principal, nesta proposição, será a sua produção para o violão), passando, enfim, por uma quebra de paradigmas, influindo na própria construção da identidade do artista, tida, de forma cristalizada como “carioca” e de uma “brasilidade”, que, até então, carece de apontamentos substanciais sobre uma etnicidade lusófona. Assim, esta proposta de comunicação reside na mudança de vetor que o lastro étnico desta nova informação traz, colaborando para a transformação de abordagens histórico e artístico-musical, em que os demais elementos já há muito estudados – seu Modernismo musical; Semana de 22; folclore; convivência com os “chorões”; suas experiências em Paris – se somariam agora a uma relação atávica, fundamentada em materialidades como dados históricos e estudos técnico-musicais da obra villalobiana. Para esta nova conformação, coletas de dados vêm sendo feitas no próprio catálogo de obras de Villa-Lobos, em arquivos digitalizados da Biblioteca Nacional (jornais) e fontes históricas relacionadas à imigração (acervos públicos) e cultura açoriana. Ponto fundamental desta análise é a pesquisa de imersão da autora, reinterpretando de Villa-Lobos o seu repertório de violão (cerca de 40 músicas), o qual é tido como referência mundial, imbuída de uma revisão técnica, transversalizada por sonoridades e modos de tocar a viola de arame (mais conhecida no Brasil por “caipira”, embora haja distintos modelos de viola pelo Brasil), agora sob o influxo de lusofonias. Essa comunicação apresentará informações oficiais definitivas sobre a ancestralidade luso-açoriana de Heitor Villa-Lobos; relembrará pontos históricos (advindos de Independência, Império e República no Brasil) e de mudança social da relação lusófona com a cidade do Rio de Janeiro, que devem ter obliterado a visibilidade de sua ancestralidade luso-açoriana (nossa hipótese), e, por fim, apresentará, por uma  pesquisa empírica, os reflexos desta informação étnica na obra musical, tendo como foco o repertório villalobiano para o instrumento violão – indícios de um caso de possível transformação na abordagem de sua trajetória, vida e arte. Dessa maneira, com tal enfoque na relação viola – violão, e prestando atenção  às variáveis, com dados empíricos somados a evidências sócio-históricas, dá-se um primeiro passo para revelar outras sociabilidades do mais consagrado compositor brasileiro.


Thiago Paes Wang – Portuguesismo em Tela: As Obras de José Malhoa e a Construção Identitária da Colônia Lusa no Brasil

A presente comunicação investiga a presença e circulação das obras do pintor português José Vital Branco Malhoa (1855–1933) no contexto do colecionismo da colônia portuguesa estabelecida no Rio de Janeiro entre o final do século XIX e o início do XX. Esse recorte temporal coincide com um período de intensa movimentação cultural e social, marcado pela busca identitária de ambos os países e pela consolidação e valorização cultural da comunidade lusa nas terras cariocas. Nesse cenário, a análise busca compreender como as obras de Malhoa, reconhecido como um dos principais representantes do naturalismo português e consolidado pelas práticas artísticas que dialogavam com as tendências modernas europeias, foram incorporadas às coleções, revelando estratégias de distinção social, redes de sociabilidade e mecanismos de legitimação cultural no espaço luso-brasileiro. Ao longo do século XIX, o Brasil recebeu um grupo específico de imigrantes portugueses, composto por industriais, comerciantes e proprietários de veículos de imprensa, que possuíam recursos para investir e enriquecer nas terras tropicais. Diante das mudanças políticas de um Brasil pró-republicano, esses agentes aplicaram esforços em estratégias que lhes permitissem perpetuar posições de poder e influência social. Nesse contexto, a solução encontrada por essa elite foi fortalecer-se como uma comunidade coesa, firmando congregações e associações beneficentes, profissionais e culturais. Essa postura evidencia a dupla presença desse grupo, que permanecia vinculado a Portugal, revertendo grande parte de seus investimentos para programas que defendiam a preservação da cultura lusitana e a manutenção dos vínculos com o país de origem, elementos considerados suficientes para assegurar visibilidade e distinção social. No campo estético, revelava-se a busca por símbolos nacionais e pelo imaginário popular. Apesar das reivindicações formais promovidas pelo Grupo do Leão na década de 1880, o público consumidor português ainda aguardava por uma mudança no conteúdo das obras, que revelassem elementos do “portuguesismo”. Essa virada programática em Malhoa, que passa a focar nas cenas rurais de gênero, ofereceu uma resposta à crise identitária, tornando-se uma saída palatável para críticos e colecionadores. Autores como Ramalho Ortigão (1836 – 1915) chegaram a confundir essa produção com “o ‘pintar’ a terra, ou o país”. A reprodução fiel da vida comum e do cotidiano no campo elegeu o povo rural, com seus costumes folclóricos, como novos heróis, símbolos do verdadeiro portuguesismo. Nesse contexto, a arte passou a se comportar como documento visível da sociedade portuguesa, ávida por um conceito de “tradição” e “raça”. A poética alinhada a esse sintoma sociocultural, somada ao fato de o artista ter tido uma formação integralmente portuguesa, distante do exterior que ironicamente almejara em sua juventude, fez com que a sociedade o elegesse como o “pintor mais português entre os portugueses”. O chamado “mito de Malhoa” demonstra como o pintor encarnou o sentimento de fin de siècle da sociedade portuguesa e o saudosismo romântico que permeava a ideologia republicana. Metodologicamente, a pesquisa se apoia na análise biográfica do artista e nos pontos de contato de sua atuação no Brasil, onde ocorreu sua primeira exposição, em 1879, até sua grande mostra individual no Real Gabinete Português de Leitura, em 1906. Pretende-se ainda levantar periódicos da época, tanto cariocas quanto lisboetas, com o intuito de compreender os discursos que envolveram a recepção de suas obras e seu consumo, dentro de uma ótica da história social da arte, privilegiando a compreensão das dinâmicas sociais e culturais da colônia portuguesa.  Complementarmente, será realizada uma breve análise iconográfica do acervo do Real Gabinete, entidade cultural regida pela comunidade portuguesa, buscando identificar elementos visuais que reforçam o “portuguesismo” presente nas obras. Nesse sentido, o Real Gabinete emerge como espaço privilegiado, atuando como receptáculo da cultura portuguesa no Brasil. A incorporação de quadros de Malhoa ao seu acervo reforça a dimensão simbólica da instituição, que se converte em um locus de memória e representação identitária, articulando valores artísticos e vínculos históricos entre Portugal e Brasil. A análise proposta permite compreender como a circulação das obras de Malhoa transcende o valor estritamente artístico, assumindo um papel simbólico na construção de uma memória coletiva e na reafirmação dos laços culturais entre os dois países. Ao mesmo tempo, evidencia-se a importância das redes de sociabilidade e das práticas colecionistas como mecanismos de distinção social e afirmação cultural, especialmente em um contexto marcado pela busca da colônia portuguesa por reconhecimento e integração no espaço urbano carioca. Assim, o estudo contribui para ampliar a compreensão sobre as relações entre arte, identidade e poder simbólico, inserindo a produção de Malhoa em um cenário transatlântico que conecta práticas culturais e estratégias sociais e, consequentemente, a formação urbana.


Victor Alexandre Barbosa de Freitas – Raça, vício e ficção: a escravidão e a cachaça na literatura brasileira (1870-1890)

Este estudo analisa como a conexão entre escravidão e consumo de cachaça, entendida como mercadoria, signo moral e ferramenta de controle social, é retratada na literatura brasileira entre 1870 e 1890, época caracterizada pelas tensões abolicionistas e pelo crescimento do Naturalismo.  Ao contrário das leituras que se concentram apenas no cânone, este estudo resgata obras pouco exploradas do período, comparando-as com textos canonizados, assim, para essa comunicação, destacaremos os romances O Mulato (1881) e Fantina: Cenas de Escravidão (1881). A partir das reflexões de Câmara Cascudo (2015) acerca do papel social da cachaça, a hipótese principal propõe que essas narrativas não-canônicas empregam a bebida não só como um elemento cênico, mas também como um mecanismo moralizante que intensifica estereótipos raciais. Com base na noção de que a aguardente era percebida como um elemento de “transgressão e controle”, esses textos elaboram discursos que, apesar de parecerem dialogar superficialmente com o pensamento abolicionista, na realidade reproduzem os mecanismos de controle e hierarquização herdados da escravidão, vinculando seu consumo à degeneração e à falta de moral de determinados grupos. Nos romances naturalistas tardios, a bebida é incorporada às teorias deterministas e racialistas do período, transformando-se em símbolo de degeneração e conflito urbano.  Para apoiar essa interpretação, a análise tomamos como base as reflexões de Alfredo Bosi (1994), Antonio Candido (2000) e Lilia Moritz Schwarcz (2013), particularmente no que diz respeito à criação de categorias raciais, lógica de estigmatização e construção da diferença no Brasil do século XIX. Os resultados iniciais sugerem que a literatura do período de 1870 a 1890 representa a escravidão e a cachaça de forma diversa: nas obras não canônicas, como um instrumento discursivo de controle moral; nas obras canônicas, como um elemento de uma economia simbólica que liga raça, vício e espaço urbano. Conclui-se que a reintegração desses textos negligenciados ao debate acadêmico possibilita uma reflexão sobre a formação do cânone e uma ampliação da compreensão das sensibilidades culturais e das dinâmicas de racialização que marcaram o Brasil do século XIX.


Victória Presto Nunes Mendes Claudino – Os meus olhos também tem cor? Uma análise do processo de des-identidade da mãe negra em As Telefones de Djaimilia Pereira e Olhos D’água de Conceição Evaristo.

A maternidade é historicamente sacralizada na tradição ocidental, sendo frequentemente apresentada como um destino natural e idealizado, capaz de dar sentido pleno à vida das mulheres. Essa perspectiva romantizada, no entanto, desconsidera as múltiplas violências e desigualdades que atravessam a experiência materna, sobretudo quando observada a partir do contexto da maternidade negra. Nesse cenário, é recorrente a vivência da solidão, resultado do abandono parental, da ausência de redes de apoio e da imposição de jornadas duplas ou até triplas de trabalho, que sobrecarregam essas mulheres tanto no âmbito doméstico quanto no profissional. A partir disso, a mulher negra é frequentemente reduzida a um papel estritamente reprodutivo e de cuidado, herança direta do período colonial, no qual seus corpos foram explorados como força de trabalho e como instrumentos de reprodução. A colonialidade instituiu um modelo de maternidade que desumaniza essas mulheres, negando-lhes o direito à individualidade, ao desejo e à complexidade subjetiva. Nesse sentido, a literatura, feita por mulheres negras, é uma forma de desnudar as violências patriarcais e racistas impostas aos corpos femininos. O romance As Telefones da portuguesa Djaimilia Pereira e o conto Olhos D’água da brasileira Conceição Evaristo, retratam simbolicamente a perda de identidade das mães. Ambas as narrativas são conduzidas a partir do ponto de vista das filhas, que ao se desencontrarem de suas mães, figuras marcadas pela ausência, pelo silêncio e pela exaustão, experimentam um processo de perda das suas próprias identidades. O romance passa em Portugal e o conto no Brasil, sociedades profundamente marcadas pela colonialidade de gênero. As diferenças geoespaciais entre os contextos narrativos não anulam as semelhanças estruturais que atravessam as experiências das personagens, mas, ao contrário, evidenciam a persistência de lógicas coloniais que continuam a moldar as relações sociais e afetivas nos espaços pós-coloniais. Dessa forma, a maternidade aparece não apenas como experiência individual, mas como um espaço de disputa entre valores divergentes. A comunicação propõe, portanto, uma leitura comparativa que articula literatura, gênero e raça, evidenciando como a colonialidade opera na construção das relações mãe e filha e na produção de identidades fragmentadas. Ao destacar essas permanências estruturais, busca-se compreender de que maneira a literatura problematiza e tensiona discursos hegemônicos sobre a maternidade, oferecendo possibilidades de leitura crítica e de ressignificação das experiências maternas negras em diferentes contextos sociais.


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